• Preços do café caíram fortemente devido ao avanço da colheita brasileira
• Mercado futuro foi pressionado por fatores técnicos e ajuste de posições
• Cotações reagiram nesta segunda com alta após previsões de frio intenso
• Dólar teve leve queda, influenciando as cotações no mercado doméstico
• Colheita no Brasil atingiu 45,7% da safra até 23 de junho
• Modelos climáticos divergem sobre intensidade e abrangência do frio
• Conflito entre Israel e Irã pode impactar a macroeconomia global
• Mercado acompanha clima, geopolítica e exportações
Os preços do café registraram fortes quedas na última semana, tanto para o arábica negociado em Nova Iorque quanto para o robusta em Londres. Esse movimento reflete, principalmente, o avanço da colheita no Brasil, que aumentou significativamente a oferta no mercado físico. Além disso, fatores técnicos também exerceram pressão sobre as cotações, como a proximidade do primeiro dia de aviso para o contrato de julho em Nova Iorque, ocorrido na sexta-feira, dia 20.
Do ponto de vista técnico, os preços foram afetados pelo ajuste de posições diante do primeiro dia de aviso. A pressão no mercado se intensificou até quarta-feira, devido ao feriado no dia 19, que manteve a bolsa fechada. Assim, o último dia útil para ajustes de posições e gerenciamento do risco de compromissos físicos foi o dia 18.
Em Nova Iorque, o contrato mais ativo, com vencimento em setembro, caiu 3.095 pontos, o equivalente a 8,9%, encerrando a sexta-feira cotado a US¢ 315,05 por libra-peso. Em Londres, o contrato de setembro do robusta teve queda ainda maior: USD 550,00 por tonelada, ou 12,8%, fechando o dia 20 a USD 3.737,00 a tonelada.
Durante o mesmo período, o dólar recuou 0,6% frente ao real, terminando a semana a R$ 5,51. Já nesta segunda-feira, até o momento da elaboração deste relatório, o mercado apresentava recuperação: em Nova Iorque, alta de mais de 1000 pontos (+3,3%) e em Londres, cerca de USD 180 por tonelada (+4,8%). Esse movimento está relacionado tanto a um ajuste técnico após a forte queda quanto à atenção às previsões climáticas no Brasil, com forte queda nas temperaturas e possibilidade da ocorrência de geadas.
Preços futuros de café arábica (US¢/lb) café robusta (USD/ton)

No mercado doméstico, o comportamento foi semelhante. Segundo o indicador Cepea, os preços do café arábica recuaram 10,4%, fechando a semana um pouco acima de R$ 1.969 por saca. O robusta teve queda de 9%, sendo cotado a pouco mais de R$ 1.167 por saca.
O avanço da colheita é apontado como principal fator de pressão nos preços, aumentando a oferta disponível. Segundo dados da StoneX, até 23 de junho, 45,7% da safra brasileira já havia sido colhida. A colheita do arábica alcançava 37,9%, enquanto a do robusta, mais adiantada, chegava a 57,5%. Entre as regiões mais avançadas estão Rondônia (60%) e Bahia (58%). Nas áreas produtoras de arábica, destacam-se Matas de Minas (46%), enquanto o Cerrado apresenta o menor percentual, com 27%.
Ritmo de colheita do café no Brasil

Fonte: StoneX.
O mercado segue atento às condições climáticas no Brasil. Modelos meteorológicos indicam possibilidade de queda nas temperaturas nos próximos dias, gerando preocupação com a ocorrência de geadas. Ainda não há consenso sobre a intensidade ou abrangência do fenômeno, mas, de acordo com o modelo europeu (ECMWF), são esperadas mínimas de 3 °C em Alfenas (MG) no dia 25, e cerca de 4 °C em Ibiraci, Machado, Nova Resende, Campos Gerais e Varginha. No estado de São Paulo, a região da Mogiana pode registrar 3,8 °C em Caconde e entre 5 °C e 6 °C em Altinópolis, Espírito Santo do Pinhal e Franca. Já em Tejupá (SP), a previsão é de 2,3 °C. No Paraná, municípios como Ibaiti e Pinhalão podem registrar temperaturas negativas.
O modelo GFS é mais otimista do que o ECMWF em relação às temperaturas mínimas previstas, pois sugere que a massa polar permanecerá concentrada no sul do Brasil, em vez de se espalhar amplamente. No norte de São Paulo e sul de Minas Gerais, o GFS prevê temperaturas mínimas acima de 3°C. Apesar da umidade reduzir o risco de geadas em muitas dessas áreas, regiões de maior altitude seguem vulneráveis, sendo necessário monitoramento constante.
Outro fator que merece atenção é o impacto da guerra no Oriente Médio sobre o mercado de café. Em 2023 e 2024, o conflito entre Israel e Hamas afetou os preços, especialmente após os ataques dos Houthis a navios no Mar Vermelho, elevando os custos de frete, sobretudo os originados na Ásia. Isso favoreceu a valorização do café robusta em Londres e impulsionou as exportações brasileiras.
Atualmente, o conflito envolve Israel e Irã, após preocupações com armas nucleares iranianas. Os Estados Unidos também participaram, bombardeando alvos relacionados a usinas de enriquecimento de urânio. Diretamente, o Irã não representa impacto significativo ao Brasil, já que em 2024 foram exportadas apenas 2.435 sacas para o país — um volume irrelevante frente às mais de 50 milhões de sacas exportadas no total.
Entretanto, há possíveis efeitos macroeconômicos. Após ataques dos EUA, o parlamento iraniano aprovou o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do petróleo mundial. Um bloqueio nessa região poderia elevar os preços do petróleo e causar inflação global. Isso aumentaria a aversão ao risco por parte dos investidores, reduzindo o apetite por ativos como commodities, inclusive o café, o que tende a pressionar os preços. No entanto, desde o início do conflito, não se tem observado um movimento significativo de aversão ao risco, o que pode indicar que os investidores não estão apostando em uma escalada do confronto. Ademais, variações cambiais provocadas pelo cenário geopolítico também podem afetar o mercado.
O mercado continuará acompanhando de perto tanto o avanço da colheita quanto as condições climáticas. A maior oferta deve manter pressão sobre as cotações, enquanto previsões de frio intenso ou geadas podem sustentar movimentos de alta. Além disso, a evolução do conflito no Oriente Médio, especialmente o possível bloqueio do Estreito de Ormuz, seguirá no radar, dada sua influência sobre a inflação, moedas e o apetite por risco dos investidores globais.
Por fim, os dados de exportações do mês de junho devem começar a ser divulgados nas próximas semanas e podem indicar uma recuperação nos embarques, refletindo o aumento da oferta com a intensificação da colheita no Brasil.
TABELA DE INDICADORES




