• USDA projeta excedente, mas estoques finais não refletem os volumes estimados
• Preços caem com avanço da colheita e demanda interna enfraquecida
• Massa polar gera alta inicial, mas impacto foi limitado
• Modelos climáticos divergiram; americano foi o mais preciso
• Colheita de robusta avança mais rápido que a de arábica
• Exportações de robusta reagem, mas seguem abaixo de 2024
• Dólar mais fraco contribui para pressão adicional no mercado interno
• StoneX divulgará relatório próprio sobre o balanço global nas próximas semanas
Os preços dos contratos futuros de café encerraram a última semana em queda, influenciados pelo avanço da colheita no Brasil e pela perspectiva de um consumo global enfraquecido. Apesar disso, a semana foi marcada por intensa volatilidade, especialmente após a passagem de uma massa polar pelas regiões produtoras brasileiras na madrugada do dia 25. Na segunda-feira, os preços abriram em forte alta, refletindo a preocupação com essa massa de ar frio que poderia atingir o cinturão cafeeiro do país.
Os diferentes modelos climáticos projetavam cenários variados. O INPE apontava para um risco de geadas mais abrangente, incluindo áreas do sul de Minas Gerais. Já o modelo europeu mostrava uma tendência semelhante, com previsão de temperaturas mínimas mais baixas do que as estimadas pelo modelo americano, que, por sua vez, previa que a massa polar se restringiria ao sul do país, sem afetar significativamente as regiões produtoras de café.
De fato, o modelo americano mostrou-se mais preciso: a massa polar concentrou-se no sul do Paraná e em Santa Catarina, onde foram registradas temperaturas negativas inferiores a 7°C. No cinturão cafeeiro, não houve registro de danos generalizados; apenas algumas microrregiões de maior altitude observaram geadas, mas são áreas com baixa relevância na produção nacional de café. Com isso, o mercado reagiu com alívio e os preços, que haviam subido na segunda-feira, caíram significativamente já nas sessões de terça e quarta-feira.
Ao final da semana, o contrato mais ativo em Nova York, com vencimento em setembro, caiu 11.130 pontos (-3,6%), fechando a US¢ 303,75 por libra-peso. Em Londres, o contrato equivalente também com vencimento em setembro recuou US$ 76 por tonelada (-2%), encerrando a semana a US$ 3.661 por tonelada. No mercado interno brasileiro, a pressão foi ainda maior devido à desvalorização de 0,5% do dólar, que encerrou a semana cotado a R$ 5,48. O indicador do Cepea para o café arábica registrou queda de 4,7%, cotado pouco acima de R$ 1.877 por saca, enquanto o robusta recuou 4,6%, sendo negociado por cerca de R$ 1.114 por saca.
Preços futuros de café arábica (US¢/lb) café robusta (USD/ton)

O cenário segue sendo de colheita avançando e demanda fragilizada. Na semana passada, a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) divulgou uma queda superior a 5% nas vendas de café no primeiro quadrimestre de 2025, com destaque para o mês de abril, que registrou uma retração de quase 16%. Por outro lado, a colheita em ritmo mais acelerado aumenta a oferta no mercado doméstico, contribuindo para manter os preços sob pressão.
Dados da StoneX indicam que, até 30 de junho, 54% da safra nacional já havia sido colhida, o equivalente a quase 35 milhões de sacas. O avanço é puxado pelo café robusta, com 68% da colheita realizada, representando cerca de 17,5 milhões de sacas. A colheita de arábica estava em 45%, ou cerca de 17,4 milhões de sacas. A expectativa é de que essa colheita, especialmente de arábica, mantenha o ritmo aquecido em julho, exercendo mais pressão sobre os preços.
Ritmo de colheita do café no Brasil

Fonte: StoneX.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) publicou na última semana suas projeções para o balanço global de oferta e demanda de café para o ciclo 2025/26. Segundo o órgão, a produção global deve crescer 2,5% e alcançar 178,7 milhões de sacas, enquanto o consumo aumentaria 1,7%, totalizando 169,4 milhões de sacas, resultando em um excedente de 9,3 milhões de sacas. O relatório também menciona excedentes expressivos nos anos anteriores: 5,4 milhões de sacas em 2023/24 e 7,9 milhões em 2024/25.
No entanto, esses dados apresentam contradições. Apesar dos excedentes citados, os estoques finais não aumentaram na mesma proporção. O próprio relatório indica que os estoques caíram de 27 milhões de sacas em 2022/23 para 23 milhões em 2023/24, o que não condiz com a existência de um excedente. Em 2024/25, os estoques caíram novamente, desta vez para 22 milhões de sacas, mesmo com a suposta sobra de quase 8 milhões. Para 2025/26, o relatório prevê um excedente de 9,3 milhões de sacas, mas os estoques finais aumentariam apenas em 1 milhão. Essa incoerência tem gerado questionamentos no setor. A StoneX avalia o balanço de oferta e demanda de forma distinta e divulgará nas próximas semanas seu próprio relatório com as estimativas globais no portal de inteligência da empresa.
Resumo do relatório global de oferta e demanda USDA (milhões de sacas)

Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.

Nas próximas semanas, o mercado continuará acompanhando o progresso da colheita no Brasil, cujo avanço tende a pressionar ainda mais os preços. As preocupações com o inverno brasileiro também permanecem no radar. Embora ainda distante, alguns modelos climáticos já indicam a possível chegada de uma nova frente fria entre os dias 8 e 10 de julho, o que poderia reativar temores sobre danos às lavouras e ter efeito altista sobre as cotações. Além disso, os dados de exportação continuarão a ser acompanhados de perto.
Os números preliminares sugerem uma recuperação nas exportações de café robusta em relação ao mês de maio, embora ainda estejam bem abaixo dos volumes de 2024. De acordo com o Cecafé, em maio de 2025 foram exportadas 202,7 mil sacas de robusta; em junho, até o dia 27, foram embarcadas mais de 375 mil sacas, representando um aumento de mais de 85% no comparativo mensal, mas ainda distante das 823 mil sacas exportadas em junho de 2024.
Considerando o arábica, os dados do Cecafé mostram que até o dia 27 de junho foram exportadas 1,43 milhão de sacas, contra 2,4 milhões em maio e quase 2,5 milhões em junho de 2024. O cenário atual, portanto, é de início de recuperação para o robusta e exportações ainda enfraquecidas para o arábica, que tende a ganhar ritmo nas próximas semanas conforme o avanço da colheita, que, como já mencionado, segue em ritmo mais lento.
TABELA DE INDICADORES



