Estoques reduzidos, geada no Cerrado, tarifas nos EUA, riscos logísticos no Vietnã, redução da produção no Brasil e incertezas climáticas impulsionam a forte alta dos preços do café
• Mercado do café sobe com geada em regiões produtoras brasileira
• Estoques globais baixos sustentam preços do café
• StoneX corta estimativas da safra brasileira de café arábica
• Tarifas dos EUA sobre café brasileiro elevam preços internacionais
• Tufão Kajiki preocupa logística e portos, mas não afeta produção
• Inflação do café avança nos EUA
• Risco de La Niña e chuvas irregulares ameaça florada
Os preços do café avançaram de forma expressiva na última semana, sustentados por estoques globais baixos, pela ocorrência de geada no Cerrado Mineiro, pela manutenção das tarifas sobre as importações de café brasileiro pelos Estados Unidos, pela produção aquém do esperado no Brasil e pela previsão de clima seco durante a florada. Esse conjunto de fatores atuou de maneira altista, elevando as cotações tanto no mercado internacional quanto no mercado doméstico brasileiro.
Dos fatores citados, nem todos são novos, mas permanecem relevantes. O cenário de estoques reduzidos já vinha impactando o mercado e foi o principal responsável pelas altas registradas no primeiro trimestre do ano. Apesar da atualização recente que reduziu ainda mais a perspectiva de produção brasileira de arábica, essa informação não representa uma novidade, já que há consenso sobre a forte queda da safra. Os elementos realmente novos nesta equação são a imposição das tarifas pelos Estados Unidos e a ocorrência da geada no Cerrado Mineiro. Já a perspectiva de clima seco durante a florada não é necessariamente uma novidade, uma vez que os problemas climáticos dos últimos anos já vinham levantando preocupações semelhantes, mas ainda assim exerce grande peso sobre os preços do café.
Em Nova Iorque, o contrato mais ativo encerrou a semana com alta de 13,2% e acumulou um avanço de 36,3% em agosto. Em Londres, o café robusta registrou alta semanal de 14,3%, com incremento mensal de 42,7%. No Brasil, o arábica teve valorização de 14,7% na semana e de 25,7% no mês, enquanto o robusta avançou 18% e acumulou ganho de 41,1% em agosto.
Preços futuros de café arábica (US¢/lb) café robusta (USD/ton)
Fonte: Cmdty View. Elaboração: StoneX.
O avanço da colheita trouxe algum alívio no curto prazo, mas esse movimento se mostrou limitado. Apesar do ritmo acelerado da colheita brasileira, os estoques globais vinham sendo consumidos ao longo dos últimos anos em função de uma sucessão de problemas climáticos que reduziram a produção. Assim, mesmo com a entrada da nova safra, a oferta mundial permanece restrita.
No Brasil, a produção de robusta avançou, mas a de arábica sofreu perdas significativas. A StoneX já havia reduzido em abril sua estimativa em 13,5% e, na atualização da última semana, cortou novamente a projeção para a safra em fase final de colheita. A revisão negativa refletiu rendimentos abaixo do esperado no Sul de Minas, no Cerrado, na Mogiana e no Sul do Espírito Santo. A nova estimativa para o arábica caiu de 38,7 milhões para 36,5 milhões de sacas, o que representa queda de 5,7% em relação à estimativa anterior e recuo de 18,4% frente à safra de 2024/25. São Paulo foi destaque negativo, com redução de 10,9% em relação à estimativa anterior e de 35,2% frente ao ano passado. O Cerrado Mineiro recuou 9,7% e o Sul de Minas, 6,6%. Já o robusta foi mantido em 25,8 milhões de sacas.

Fonte: StoneX.
Outro fator relevante foi a geada de 11 de agosto, que não havia sido antecipada pelos modelos climáticos. A StoneX estimou que o evento pode ter reduzido o potencial produtivo do Cerrado Mineiro em cerca de 424 mil sacas. Além disso, ainda há risco de perdas adicionais, dependendo do impacto das baixas temperaturas sobre os botões florais, algo que só poderá ser confirmado após a abertura da florada.
No cenário internacional, a aproximação do tufão Kajiki ao Vietnã gerou inicialmente preocupações em relação à produção de café robusta, uma vez que o país é o segundo maior produtor mundial de café e o principal produtor de robusta. No entanto, não há expectativa de impactos diretos sobre a produção, já que o fenômeno está ocorrendo em regiões que não possuem cafezais. As principais áreas produtoras, localizadas no Central Highlands, não estão na rota do tufão, o que afasta riscos significativos para a safra vietnamita. A grande preocupação, neste caso, concentra-se nos possíveis impactos do fenômeno sobre a logística e a infraestrutura portuária.
As tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos sobre o café brasileiro também exerceram pressão altista. O país norte-americano é altamente dependente do Brasil, que respondeu por 35% das importações em 2024 e mais de 30% no primeiro semestre de 2025. Essa medida tende a encarecer a oferta no mercado americano, em um cenário em que já se observa inflação crescente para o café. Os preços ao consumidor nos EUA subiram 33,4% até julho, segundo o BLS. Em contraste, a inflação do café perdeu força no Brasil, passando de 82,2% em maio para 70,5% em julho, enquanto na União Europeia se estabilizou em torno de 20%.
Inflação dos preços de café torrado e moído ao consumidor

Fontes: IBGE, BLS e Eurostat. Elaboração: StoneX.
Além disso, a imposição dessas tarifas deve provocar uma reorganização nas rotas de comércio mundial. Países produtores de arábica, como Colômbia, Guatemala e Honduras, tenderão a redirecionar maiores volumes aos Estados Unidos, atraídos pelos preços mais elevados. Os mercados que deixarão de ser atendidos por esses exportadores abrirão mais espaço para que o Brasil direcione parte de sua produção a esses destinos, já conhecidos, mas com maior participação. O efeito líquido será uma realocação de fluxos comerciais, com impactos sobre volumes e preços globais.
Com a colheita praticamente concluída, 98,2% no total (100% do robusta e 96,9% do arábica), as atenções se voltam para as condições climáticas na florada. A abertura da florada robusta já começou no Espírito Santo e na Bahia, mas o arábica ainda aguarda o período mais intenso. Os modelos climáticos indicam risco de chuvas irregulares e possibilidade de La Niña até o final do ano, o que pode trazer precipitações abaixo da média no cinturão cafeeiro entre setembro e outubro, normalizando apenas a partir do fim de outubro. A ocorrência de ondas de calor também está no radar. Caso esse cenário se confirme, a florada poderá ser comprometida, assim como ocorreu em 2024, reforçando ainda mais a restrição de oferta global.
Ritmo de colheita do café no Brasil

Fonte: StoneX.
Portanto, o mercado de café segue sustentado por um conjunto de fatores altistas: estoques reduzidos, geada no Cerrado, tarifas norte-americanas, incertezas climáticas na florada, riscos logísticos no Vietnã e a reorganização do comércio internacional. O clima, a partir de agora, será o principal direcionador dos preços, em um contexto em que a oferta já se encontra em situação delicada.
TABELA DE INDICADORES
Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.