Depois de recuar na semana passada, os futuros do café sobem com a recuperação do real
• Clima favorável melhora expectativa para safra 2026/27 no Brasil
• Risco de seca repentina preocupa sob influência do La Niña
• Reaproximação diplomática entre Brasil e EUA pode aliviar tarifas
• Exportações brasileiras sobem mais de 20% no comparativo mensal
• Queda anual nas exportações reflete menor oferta e tarifas americanas
• Vietnã aumenta exportações em 58,5% em setembro
Os preços do café encerraram a última semana em queda, refletindo uma combinação de fatores climáticos e geopolíticos. A melhora nas perspectivas de chuva no Brasil e o sinal de reaproximação diplomática entre os governos brasileiro e americano geraram expectativas de que as tarifas impostas pelos Estados Unidos às importações de café brasileiro possam ser suspensas. Além disso, o avanço das tensões comerciais entre Estados Unidos e China provocou um movimento global de aversão ao risco e alta do dólar.
Com a escalada da guerra comercial entre as duas potências, a China endureceu as regras para as exportações de terras raras, e os Estados Unidos ameaçaram impor tarifas de até 100% sobre produtos chineses. Esse cenário fortaleceu o dólar e afetou negativamente o mercado de commodities. O índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana frente a uma cesta de moedas desenvolvidas, subiu 1,2%, atingindo 98,61 pontos. Já o dólar avançou 3,5% em relação ao real, encerrando a semana a R$ 5,52. Como já mencionado em outras análises, a valorização da moeda americana tende a pressionar os preços futuros de café, pois desestimula as vendas dos países produtores.
Em Nova Iorque, o contrato mais ativo, com vencimento em dezembro, recuou 1.770 pontos, ou 4,5%, para US¢ 373,05 por libra-peso. Em Londres, o contrato mais negociado, agora com vencimento em janeiro, caiu US$ 131 por tonelada, ou 2,9%, para US$ 4.391 por tonelada.
Nesta segunda-feira, os preços futuros do café encerraram a sessão em alta, recuperando parte das perdas registradas na última semana. O contrato de arábica com vencimento em dezembro avançou 1.215 pontos, equivalente a 3,26%, fechando a 385,20 centavos de dólar por libra-peso. Em Londres, o contrato mais líquido, com vencimento em janeiro, subiu 76 dólares por tonelada, ou 1,73%, encerrando o dia a 4.467 dólares por tonelada. O movimento de alta foi impulsionado principalmente pela desvalorização do dólar na sessão. Após ter subido 2,82% na sexta-feira e encerrado a R$ 5,52, a moeda americana recuava 1,33% nesta segunda-feira, sendo cotada a R$ 5,44 no momento da redação deste relatório.
Preços futuros de café arábica (US¢/lb) café robusta (USD/ton)
Fonte: Cmdty View. Elaboração: StoneX.
A queda observada nos mercados internacionais contrastou com o desempenho misto do mercado doméstico brasileiro ao longo da última semana. Segundo o indicador Cepea, o café arábica apresentou leve valorização de 0,3%, encerrando o período cotado a R$ 2.191,74 por saca. Já o café robusta manteve-se praticamente estável, fechando a semana em R$ 1.388,41 por saca.
O clima no Brasil segue sendo um fator determinante. Modelos meteorológicos apontam para volumes consistentes de chuva nas principais regiões produtoras, o que favorece a florada e alimenta expectativas de uma boa safra em 2026/27. Embora o fenômeno La Niña deva persistir até o início do próximo ano, as projeções indicam precipitações relevantes que devem beneficiar o desenvolvimento das lavouras. Ainda assim, períodos prolongados de estiagem ou calor intenso podem alterar esse cenário, mantendo o clima como uma variável crítica para os preços e a produtividade. Um risco relevante associado ao fenômeno La Niña é a possibilidade de ocorrência de seca repentina, conhecida como flash drought, que pode impactar negativamente o desenvolvimento da safra, comprometendo o potencial produtivo das lavouras em fases críticas de formação.
No campo diplomático, o mercado reagiu positivamente à ligação entre o presidente americano e o presidente brasileiro. O gesto foi interpretado como um sinal de possível resolução das tarifas impostas pelos Estados Unidos. O secretário de Estado Marco Rubio foi designado como negociador americano, tendo como contraparte o ministro Mauro Vieira e o vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, pelo lado brasileiro. Essa aproximação tem potencial de reduzir barreiras e, consequentemente, aliviar as barreiras tarifárias sobre as importações de café do Brasil.
Nos dados de exportação, o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) informou que o país exportou 3,75 milhões de sacas em setembro, queda de 18,4% em relação ao mesmo mês de 2024. A receita, no entanto, aumentou 7,6%, totalizando R$ 7,35 bilhões. As exportações de café cru somaram 3,45 milhões de sacas, sendo 2,96 milhões de arábica (queda de 10%) e 489,7 mil de robusta (queda de 47,8%). Já o café industrializado recuou 19,5%, para 295,5 mil sacas.
Exportações brasileiras de café (milhões de sacas)

Fonte: Cecafé. Elaboração: StoneX.
É importante destacar que, no comparativo mensal, as exportações brasileiras avançaram mais de 20%, dando continuidade ao movimento de recuperação observado desde junho. Esse avanço reflete o comportamento sazonal das exportações de café, que tradicionalmente se intensificam no segundo semestre, acompanhando o aumento da disponibilidade do produto. Assim, o volume de 3,45 milhões de sacas de café cru exportadas em setembro se alinha à curva sazonal típica do setor, reforçando a tendência de elevação gradativa dos embarques brasileiros nos últimos meses.
Entre os destinos, as exportações para os Estados Unidos despencaram 52,8%, totalizando 332,8 mil sacas, refletindo diretamente o impacto das tarifas. Também houve quedas para Alemanha (16,9%), Itália (23%) e Bélgica (52,6%). Em contrapartida, as exportações para a Colômbia aumentaram 567,6%, para 107,28 mil sacas, evidenciando uma reconfiguração dos fluxos comerciais diante das restrições impostas pelo mercado americano.
Por fim, dados da autoridade aduaneira do Vietnã indicaram exportações de 1,35 milhão de sacas em setembro, alta de 58,5% em relação ao ano anterior. No acumulado da safra, o país embarcou pouco mais de 20 milhões de sacas, queda de 1,13% no comparativo anual. O avanço das exportações vietnamitas em setembro ajudou a suprir parte da demanda internacional, contribuindo também para a pressão sobre as exportações do robusta brasileiro.

Exportações vietnamitas de café (milhões de sacas)
Fonte: Vietnam Customs. Elaboração: StoneX.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.