Café avança com clima no Brasil e tensões entre Colômbia e EUA
• Clima no Brasil e tensões geopolíticas sustentam altas nos preços
• Chuvas abaixo da média mantêm preocupação com a safra 2026
• StoneX inicia levantamento pós-florada da safra 2026/27
• Reaproximação entre EUA e Brasil pode aliviar tarifas sobre café
• Consumo de café cai 3,7% no Japão
• Estoques certificados de arábica recuam 8,3% na última semana
• Colheita no Vietnã deve aumentar oferta e pressionar Londres
Os preços futuros do café encerraram a última semana em alta, impulsionados por preocupações com o clima no Brasil, pela desvalorização do dólar e pela recente escalada das tensões entre Colômbia e Estados Unidos. Em sentido oposto, dados divulgados no Japão mostraram queda no consumo.
O dólar index recuou 0,3% para 98,3 pontos, enquanto o dólar frente ao real brasileiro caiu 2,1%, encerrando a semana a R$ 5,41. Em Nova Iorque, o contrato mais ativo avançou 6,5%, fechando a US¢ 397,45 por libra-peso. Em Londres, o contrato com vencimento em janeiro subiu 2%, para US$ 4.478 por tonelada.
O início desta semana manteve o viés positivo. Nesta segunda-feira, no momento da redação deste relatório, o contrato de dezembro em Nova Iorque apresentava um avanço 990 pontos, alta de 2,5%, para US¢ 407,35 por libra-peso. Em Londres, o contrato de janeiro subia 38 dólares por tonelada, ou 0,85%, para US$ 4.516 por tonelada. O movimento reflete tanto o quadro climático no Brasil quanto o agravamento das tensões diplomáticas entre Estados Unidos e Colômbia.
O presidente americano fez duras críticas ao presidente colombiano Gustavo Petro e indicou a possibilidade de imposição de tarifas, o que preocupa o mercado norte-americano, já que a Colômbia é o segundo maior fornecedor de café para os Estados Unidos, atrás apenas do Brasil. Em 2024, o Brasil respondeu por 35% das importações americanas e a Colômbia por 20%. Esse cenário tem sustentado os preços, especialmente em Nova Iorque.
No Brasil, o mercado doméstico acompanhou o movimento externo: na última semana, o indicador Cepea para o arábica subiu 3,2% para R$ 2.662,88 por saca, e o robusta avançou 0,9% para R$ 1.400,77 por saca.
Preços futuros de café arábica (US¢/lb) café robusta (USD/ton)
Fonte: Cmdty View. Elaboração: StoneX.
Um assunto que tem ganhado destaque é a previsão de queda nas temperaturas nos próximos dias, com modelos indicando mínimas próximas de 10°C em algumas áreas do sul de Minas Gerais. Apesar dessa queda, no momento não há expectativa de riscos significativos, já que as temperaturas mais baixas devem ocorrer em regiões de maior altitude. Além disso, a florada do café segue na fase final de abertura. Essa queda de temperatura também deve ser pontual, não representando risco de geada.
Do ponto de vista fundamental, o clima segue sendo o principal fator de atenção. Embora tenham ocorrido chuvas nas últimas semanas, o regime foi irregular e o volume acumulado permanece abaixo da média histórica, gerando preocupação quanto ao desenvolvimento das lavouras. Os modelos meteorológicos indicam agora precipitações menos abrangentes do que o previsto anteriormente. Há expectativa de retorno a um regime de chuvas mais regular no próximo mês (novembro), devido à presença consolidada do fenômeno La Niña. Por outro lado, existe o risco de secas repentinas (flash droughts), especialmente nos primeiros meses de 2026 — eventos de estiagem severa e altas temperaturas que podem afetar o desenvolvimento do grão de café, como foi vivenciado no início de 2025.
Esse período é crítico para o ciclo do café. O robusta já finalizou a florada, enquanto o arábica passa pela fase de abertura e início do desenvolvimento. Qualquer adversidade climática neste momento pode comprometer o potencial produtivo da safra 2026. A StoneX iniciou os levantamentos de campo da pesquisa pós-florada e divulgará em novembro sua primeira estimativa para a safra 2026/27 no Brasil.
No cenário geopolítico, a possibilidade de reaproximação entre Estados Unidos e Brasil traz alívio parcial às cotações, com expectativa de redução ou retirada das tarifas sobre o café brasileiro, reforçada pelo recente encontro entre o Secretário de Estado americano Marco Rubio e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. Em contrapartida, as tensões entre Washington e Bogotá permanecem um fator de risco altista.
Do lado da demanda, a All Japan Coffee Association informou que o consumo japonês somou 4,43 milhões de sacas nos oito primeiros meses de 2025, queda de 3,7% em relação ao mesmo período de 2024. O consumo doméstico brasileiro também mostra desaceleração, refletindo o repasse dos custos ao consumidor final e o efeito da inflação global sobre os preços de café.
Outro fator que sustenta os preços é a redução contínua dos estoques certificados, especialmente de café arábica. Na última semana, houve queda de 8,3%, para 467 mil sacas. Em um mês, a redução acumulada supera 29%. Com os diferenciais atuais nas origens, há pouco incentivo à certificação de novos lotes, o que mantém o mercado ajustado e tende a sustentar as cotações.
Nas próximas semanas, o mercado deve seguir volátil, com influência de múltiplos vetores. Os fatores de baixa incluem a desaceleração do consumo global, a possível normalização das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e um cenário climático favorável no cinturão cafeeiro. Em contrapartida, qualquer evento adverso no clima brasileiro ou avanço das tensões entre Estados Unidos e Colômbia atuará de forma altista para as cotações.
Outro destaque é o início da colheita da safra de café no Vietnã, principal produtor mundial de robusta. Segundo projeções do USDA, a produção vietnamita deve apresentar uma recuperação de aproximadamente 7% na temporada 2025/26, alcançando cerca de 31 milhões de sacas. A colheita está prevista para começar em meados de novembro, com o fluxo de café ganhando ritmo a partir de dezembro. O mercado acompanhará atentamente esse movimento, já que o aumento esperado da oferta global de robusta tende a exercer pressão baixista sobre as cotações em Londres.
Os estoques globais seguem historicamente baixos após a redução de mais de 22 milhões de sacas entre 2021 e 2024. Para 2025, projeta-se equilíbrio, sem recomposição significativa. Essa restrição de oferta continua sendo um elemento de sustentação estrutural para os preços internacionais do café.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.