A última semana apresentou resultados mistos para os futuros de café, com queda nos preços do arábica em Nova Iorque e avanço no robusta em Londres. O contrato de arábica para maio registrou retração semanal de 1,7%, encerrando a US¢ 280,75/lb. Já em Londres, apesar da volatilidade ao longo da semana, o robusta conseguiu fechar com leve alta de 0,9%, cotado a USD 3.624/ton.
No Brasil, o sentimento otimista continuou predominando, mantendo o mercado em patamares pressionados. A combinação de expectativas positivas para a próxima safra e a manutenção de condições climáticas favoráveis tem consolidado um cenário de preços mais baixos, com eventuais correções devendo ser mais pontuais e pouco amplas ao menos ao longo do primeiro semestre.
No arábica, o mercado segue pressionado principalmente pela perspectiva de oferta ampla na colheita brasileira. A entrada da safra nos próximos meses tende a reforçar o movimento baixista e exercer pressão adicional sobre os diferenciais no país.
Recuperação nos estoques certificados: Como antecipado na semana anterior, os estoques certificados voltaram a subir. A ICE reportou um incremento de quase 20 mil sacas, alcançando 477 mil sacas na sexta-feira (27), o maior nível desde outubro do ano passado.
Por que isso importa: Embora ainda estejam abaixo da média dos últimos anos, a recuperação — aliada à expectativa de mais sacas sendo submetidas à classificação — ajuda a mitigar a percepção de aperto na disponibilidade global. Apesar de não refletirem precisamente os estoques mundiais, os certificados funcionam como uma reserva de última instância e um termômetro relevante da oferta disponível.
Robusta com leve alta: O robusta registrou avanço modesto influenciado pelas instabilidades climáticas no Vietnã, que podem afetar a dinâmica local de curto prazo. Após o retorno dos feriados asiáticos, o mercado voltou a ganhar ritmo, com produtores tentando reter parte da produção à espera de preços mais altos, embora as negociações devam aumentar nas próximas semanas. O clima no país continuará sob monitoramento.
Mercado físico brasileiro: O indicador Cepea encerrou o período com apontando cotação de R$ 1797,6/saca para o café arábica, queda de 0,5%. Já o indicador para o café robusta marcou retração de 1,0%, cotado a R$ 1032,7/saca.
O que pode mudar o viés baixista do mercado?
Em um momento de perspectiva majoritariamente otimistas na maior parte dos principais países produtores, com exceção da Colômbia, uma nova instabilidade climática parece ser o fator que mais poderia trazer volatilidade ao mercado.
Nesse cenário, enquanto um El Niño já parece bastante provável para o segundo semestre, o monitoramento da intensidade do fenômeno será fundamental para o período que precede a florada. Enquanto um El Niño fraco pode vir a ter efeitos positivos para a chegada de chuvas no cinturão cafeeiro, uma intensidade maior, com um aquecimento mais significativo das temperaturas, passaria a gerar maior preocupação.
Dessa forma, até o momento, pelo que os modelos de monitoramento têm mostrado, este pode ser o principal fator para elevar a percepção de risco pelos agentes comerciais e investidores e fornecer algum suporte mais sustentado.
Para essa semana: Além do clima no Brasil e Vietnã, os agentes devem acompanhar as próximas divulgações de exportações vietnamitas e de produção na Colômbia em fevereiro. As prévias das exportações brasileiras no mês passado também serão publicadas pela Secex.
Conflito geopolítico e possíveis impactos no mercado de café
Conflito geopolítico: Nesta segunda-feira, a movimentação dos preços futuros do café parece estar fortemente associada ao aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, sobretudo a partir da valorização dos futuros do petróleo.
- Investidores temem que o conflito possa causar paralisação no Estreito de Hormuz, rota responsável por cerca de um quinto do fluxo global de petróleo e GNL.
- Desde o início da sessão, a alta das commodities energéticas rapidamente se transmitiu para os principais índices globais de commodities, que atribuem peso relevante ao petróleo. Como resultado, a reprecificação tem puxado a cesta como um todo, elevando também os preços de commodities agrícolas, inclusive o café, mesmo sem alterações imediatas na oferta do grão.
- Ao mesmo tempo, o conflito reacende incertezas logísticas, sobretudo devido ao aumento do custo de fretes e prêmios de seguro em rotas próximas ao Oriente Médio.
- O encarecimento do transporte e a maior exposição a riscos marítimos podem elevar os custos operacionais de exportadores de café, especialmente aqueles que utilizam rotas que passam por corredores sensíveis a essa instabilidade geopolítica, adicionando um prêmio de risco aos contratos futuros.
- Vale lembrar que, no conflito entre Israel e Irã em 2024, os fretes das rotas dos países asiáticos à Europa e EUA se elevaram expressivamente devido à elevação do risco na região, principalmente após os ataques no grupo armado Houthis a embarcações no Mar Vermelho.
Impacto de longo prazo: No horizonte de médio e longo prazos, contudo, o efeito pode assumir uma direção distinta.
- Se o petróleo permanecer elevado por um período prolongado, impulsionado por uma eventual intensificação da crise geopolítica, o choque energético tende a se transformar em pressão inflacionária mais ampla, reduzindo renda disponível e desacelerando o consumo global.
- Essa dinâmica tenderia a afetar sobretudo a demanda por produtos discricionários, categoria na qual o café se insere. Assim, embora o choque atual seja altista via índices e logística, a persistência de preços elevados de energia pode, adiante, criar um ambiente mais moderado para o consumo, introduzindo um viés potencialmente baixista para o café no médio prazo.
Instabilidades climáticas no Vietnã e Colômbia
Apesar da transição do ENSO La Niña para a neutralidade, alguns efeitos do fenômeno ainda persistem e têm contribuído para intempéries climáticas em diversas regiões.
Vietnã: No caso do Vietnã, as chuvas intensas que atingiram as Terras Altas Centrais — principal região produtora — geraram preocupação na fase final de desenvolvimento de parte dos frutos da safra 2025/26, elevando o risco de doenças fúngicas, dificultando a secagem e até provocando queda dos frutos das floradas mais tardias.
Os mapas climáticos da StoneX indicam que, nas próximas duas semanas, as chuvas devem continuar, porém em volumes mais moderados, o que tende a favorecer uma normalização das condições. Ainda assim, a situação seguirá sob monitoramento do mercado.
Colômbia: Na Colômbia, as chuvas torrenciais continuam e podem pressionar os diferenciais no curto prazo, agravando o cenário já difícil observado em janeiro e fevereiro — período em que o mapa de anomalia de 30 dias mostrou volumes muito acima da média. As fortes precipitações têm causado bloqueios, deslizamentos e erosão em áreas de produção.
Os mapas de anomalia dos últimos 60 dias indicam acumulados entre 60% e 100% acima da média histórica para o período em praticamente todo o país, prejudicando a floração e, consequentemente, a formação dos frutos para os próximos meses. A gravidade da situação levou o governo a implementar medidas emergenciais de apoio financeiro. A previsão para os próximos sete dias é de menor intensidade das chuvas, o que pode trazer alívio parcial; contudo, há risco de nova intensificação a partir da semana seguinte, exigindo acompanhamento contínuo.
Para verificar com mais detalhes o histórico e previsão para os países, acesse o painel de mapas climáticos.
Resultados das empresas do setor
Resultados trimestrais da Keurig Dr Pepper
Na última terça-feira (24), a Keurig Dr Pepper (KDP) divulgou seus resultados do 4º trimestre e do ano cheio de 2025.
- A companhia é uma das maiores empresas de bebidas da América do Norte, com US$ 16,6 bilhões em receita no ano.
- Dentro desse total, a divisão "U.S. Coffee", concentrada no consumo doméstico via cápsulas, movimenta cerca de US$ 4,0 bilhões anuais.
Por que isso é importante: Pelo tamanho e pelo amplo uso do sistema Keurig nos EUA, seus números oferecem um bom retrato do comportamento do consumo doméstico em um dos principais mercados consumidores globais de café.
- Nesse sentido, como forma de termômetro da resiliência da demanda na ponta final da cadeia, as divulgações de resultado da empresa também podem impactar os preços futuros do café.
Em detalhes: Em 2025, a receita da divisão de café ficou praticamente estável, com leve crescimento anual de receita (+0,6%).
- Houve recuo de volume (-4,2%), mas sem perda proporcional de faturamento, e a operação manteve margens operacionais acima de 30%.
- A manutenção da receita, por sua vez, veio majoritariamente de um aumento 4,8% nos preços realizados pela companhia.
- Para um negócio dessa escala, os números sugerem que o ajuste ocorreu de forma administrável. O consumidor absorveu parte do aumento de preços e reduziu marginalmente o volume, mas não houve deterioração estrutural da base de consumo.
- O padrão se repetiu no quarto trimestre de 2025, com crescimento de receita (+3,9%) mesmo com recuo de volume (-4,1%). No período, a empresa reporta uma alta de 8,0% nos preços, o que ajuda a explicar o aumento de receita apesar da diminuição de volumes comercializados.
- Ainda que o mercado consumidor americano tenha se mostrado um dos mais resilientes às altas de preços em 2025, com sinais de melhora principalmente no 2º semestre, os resultados da companhia mostram que parte do setor ainda possui espaço para retomar maiores volumes em 2026.
Resultados trimestrais da Luckin Coffee
Participantes do mercado também acompanharam, na quarta-feira (26), a divulgação dos resultados do 4º trimestre de 2025 da chinesa Luckin Coffee.
- A companhia, fundada em 2017, tornou-se a maior rede de cafeterias da China em número de lojas e uma das maiores do mundo em escala operacional, encerrando o ano com 31.048 unidades.
- Em 2025, a receita totalizou aproximadamente US$ 7,0 bilhões, com crescimento anual de 43%.
- O quarto trimestre registrou alta de 32,9% de receita na comparação anual, enquanto a base de clientes ativos mensais atingiu 98,4 milhões, avanço de 26,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Por que isso é importante: Pelo tamanho da operação e pela velocidade de expansão, os números da Luckin oferecem uma leitura direta da demanda por café no maior mercado consumidor emergente do mundo.
- A China ainda possui consumo per capita baixo frente a mercados ocidentais, mas apresenta uma das maiores taxas de crescimento estrutural.
- Quando uma empresa desse porte mantém expansão robusta de receita, lojas e base de clientes, especialmente no cenário recente de maior volatilidade nos contratos futuros de café, isso ajuda a avaliar a interpretação de força da demanda global.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.