Futuros de café fecham semana em recuperação significativa
- Altista
- Petróleo segue pressionando complexo de commodities;
- Riscos de disrrupções logísticas na região do Oriente Médio;
- IRI eleva intensidade projetada para El Niño no 2º semestre;
- Safra menor e restrições nas vendas fortalecem diferenciais de café arábica no Brasil.
- Baixista
- Projeções de safra recorde no Brasil;
- Desenvolvimento positivo das lavouras e clima regular no Brasil;
- Projeções positivas para volumes do Vietnã e Indonésia em 2025/26.
Segunda-feira inicia com correções, na esteira de queda do petróleo
Os futuros de café apresentaram valorização significativa na última semana, influenciados principalmente pela alta dos preços do petróleo e pela intensificação do conflito no Oriente Médio, que voltou a figurar como um importante vetor de volatilidade. Embora o mercado de café não apresente uma correlação direta com o petróleo, o encarecimento do diesel e do gás natural já tem impacto concreto sobre os custos da cadeia cafeeira, seja via transporte, seja nos custos operacionais da indústria torrefadora. Além disso, o aumento dos prêmios de risco associado à escalada do conflito — com relatos de embarcações evitando a rota do Mar Vermelho — passou a ser incorporado à precificação, reforçando o viés de sustentação dos preços no curto prazo.
Arábica: O vencimento de maio para o café arábica registrou valorização de 6,7%, cotado a US¢ 302,35/lb. Como temos comentado, o arábica enfrenta um cenário distinto entre o presente e expectativas: Enquanto espera-se uma safra recorde a ser colhida no Brasil, o atual momento é de oferta restrita, tanto pelo fato de o país estar vindo de uma safra ruim, quanto pelo fato de os produtores estarem segurando as negociações. Estes fatores tem contribuído para o piso em torno de de US¢ 280/lb que o mercado vem trabalhando nas últimas semanas.
Robusta: A tela equivalente do café robusta marcou avanço de 6,0% na bolsa de Londres, cotada a USD 3.664/ton. O robusta do Sudeste Asiático, como principal dependente da rota do Mar Vermelho para os envios aos mercados ocidentais, permanece com o mais afetado e passível de maiores riscos. O fluxo de oferta no Vietnã tem se mostrado volátil, com os produtores variando entre momentos de ampliação de oferta, no temor de os preços caírem mais, ou restringindo as vendas em outros momentos, como na semana passada, na esperança de alcançar preços melhores.

Fonte: CmdtyView. Elaboração: StoneX.
Mercado físico: No Brasil, o indicador CEPEA para o café arábica mostrou avanço de 4,5% na semana, terminando o período cotado a R$ 1962,7/saca. Já o café robusta marcou avanço mais modesto, de 1,4%, cotado a R$ 1.014/saca na última sexta-feira.
Nesse segunda-feira (23): Os futuros de café recuam nas principais bolsas, acompanhando a desvalorização de quase 10% do petróleo Brent, após a declaração do presidente dos EUA, Donald Trump, na manhã de hoje, de que Estados Unidos e Irã chegaram a um acordo para a suspensão temporária das ofensivas pelos próximos cinco dias. Uma vez que os fundamentos específicos do café devem permanecer inalterados, caso o arrefecimento do conflito se confirme — aumentando as chances de normalização dos fluxos pelo Estreito de Ormuz —, a redução dos prêmios de risco, bem como das preocupações com novas altas nos fretes, tende a voltar a pressionar as cotações.
Guerra segue afetando fortemente custos de fertilizantes
A alta dos custos de alguns fertilizantes, em especial os nitrogenados, também cresce como um fator de preocupação para o mercado de café, com os preços da ureia acumulando altas superiores a 40% no mercado internacional desde o início do conflito. Segundo o último Semanal de Fertilizantes da StoneX, paralisações produtivas, de um lado, e preços elevados do gás natural, de outro, voltam a pressionar o mercado, aumentando a chance de um aperto ainda maior no balanço global do insumo.
Por que isso importa: No caso brasileiro, as aplicações mais críticas de fertilizantes tendem a ocorrer a partir do 2º semestre, após a colheita do café. Todavia, os próximos meses começam a se configurar o período de aquisição por parte dos produtores. Caso a condição não se normalize e os adubos sigam com preços elevados e demonstrem alguma escassez no mercado internacional, o custo do produtor e a disponibilidade do produto corre risco de ser impactada no país.
No caso para os países que possuem outro padrão de ciclo anual (out-set), e se encontram em período de florada, a aquisição necessária dos fertilizantes ocorreu ao longo dos últimos meses, e não tendem a sofrer impactos tão significativos no que diz respeito a aquisições nesse momento. Todavia, têm sido reportados que, em meio à restrição de oferta no mercado internacional, os cafeicultores têm sido mais cautelosos em suas aplicações.
Oferta restrita e bolsa pressionada tem impulsionado diferenciais de arábica no Brasil
Diferencial mais elevado do arábica brasileiro: Os preços do café arábica no Brasil costumam ser negociados abaixo dos valores da bolsa de Nova Iorque, o que garante competitividade ao produto nacional. Desde o início do ano, entretanto, os diferenciais brasileiros têm se aproximado de níveis mais próximos do terreno positivo.
- Esse movimento sugere, especialmente, que os efeitos da safra 2025/26 menos volumosa, estimada em 36,5 milhões de sacas, continuam afetando os preços físicos no país.
- Na semana passada, por exemplo, destacamos em relatório que o Brasil segue com ritmo lento de exportação, com queda de 23,5% em fevereiro frente ao mesmo mês do ano anterior, totalizando 2,6 milhões de sacas de todos os tipos.
- Além disso, há relatos de que produtores estejam vendendo de forma mais gradual na espera por preços melhores, o que reduz a oferta disponível e limita uma queda maior dos preços no curto prazo.
- Relatos de mercado indicam que, até poucos dias atrás, cerca de um quarto da safra ainda não havia sido comercializado, enquanto no ano passado praticamente toda a produção já estava vendida no mesmo período.
- Com a entrada da nova safra 2026/27, cuja estimativa mais recente da StoneX aponta para 50,2 milhões de sacas, contudo, a expectativa é de alívio nesse aperto de curto prazo, principalmente após o início da colheita. A maior disponibilidade tende a elevar os estoques e devolvendo os diferenciais a níveis mais próximos da média histórica.
Diferencial reduzido do robusta no Brasil: No robusta, embora os preços físicos permaneçam significativamente acima da média histórica, o diferencial em relação à bolsa de Londres segue comportamento típico dos anos em que o indicador opera mais negativo.
- Esse movimento é explicado principalmente pelo avanço da colheita da safra 2026/27 nos principais produtores asiáticos, Indonésia e Vietnã, reduzindo a necessidade global pelo produto brasileiro, que geralmente se destina mais ao consumo interno.
- Além disso, a menor produção brasileira no ciclo atual se deve muito mais ao arábica do que o robusta, em grande parte devido ao forte desempenho dos produtores do Espírito Santo.
- No ciclo 2025/26, o robusta brasileiro atingiu recorde de produtividade, com estimativa da StoneX de 25,6 milhões de sacas.
- Com isso, os estoques nacionais de robusta seguem menos pressionados do que os de arábica, que sofreram mais com a menor produtividade do ciclo.
Diferencial médio mensal de café arábica e robusta, respectivamente no mercado brasileiro (US¢/lb)

Fontes: ICE e CEPEA. Elaboração: StoneX.
Vale observar: O acompanhamento dos preços físicos do café robusta nos principais países produtores (Brasil, Indonésia e Vietnã) mostra que, nas últimas semanas, os preços praticados no Brasil têm ganhado competitividade em relação às demais referências, algo que não ocorria desde setembro de 2025.
- Embora ainda seja cedo para apontar uma causa definitiva, sobretudo por se tratar de uma reversão inicial, uma possível explicação está na redução da competitividade do robusta asiático diante das dificuldades logísticas decorrentes da maior proximidade com o Oriente Médio.
- A rota Ásia–Europa tende a depender de trechos próximos à região do conflito, o que diminui a atratividade do produto asiático em um momento de custos logísticos mais altos.
Diferenciais de café robusta nas principais origens (USD/t)
Fonte: CEPEA, ICE, LSEG. Elaboração: StoneX.
Indicadores de inflação mostram desaceleração nas principais regiões
As últimas atualizações dos indicadores de inflação do café torrado e moído de fevereiro apresentaram, de maneira geral, uma continuidade do cenário de desaceleração no início do ano, no entanto, com particularidades e pontos de atenção a serem destacados.
- Brasil: a variação mensal de fevereiro foi de -1,2%, no entanto, o acumulado em 12 meses despencou pelo segundo mês consecutivo. Passando de 35,6% em dezembro/25 para 23,5% em janeiro e para 10,1% em fevereiro.
- No caso brasileiro, isso acontece pelo fato de a série de 12 meses estar eliminando os meses de inflação mais alta vistos no 1º trimestre do ano passado. Nesse sentido, a atualização de março deverá mostrar nova queda significativa no acumulado.
- EUA: A inflação mensal do café foi de 1,0%, com o acumulado recuando para 30,5%.
- No cenário americano, vale atenção o fato de este ter sido o segundo mês consecutivo do aumento no comparativo mensal, o que fica como ponto de atenção e, caso persista, pode desacelerar o ritmo de desaceleração no país.
- Zona do euro: Leve alta mensal de 0,1%, com o acumulado caindo para 15,2%, menor nível desde março/25.
- Em situação semelhante à observada no mercado americano, a região merece atenção especial, uma vez que as fortes altas tanto nos fretes quanto no gás natural — principal matriz energética da indústria local de café —, caso persistam, podem contribuir para interromper a trajetória de declínio.
Inflação do café torrado e moído acumulada em 12 meses

Fontes: IBGE, BLS e Eurostat. Elaboração: StoneX.
Por que isso é importante: Os indicadores de inflação são um dos principais termômetros para as expectativas de consumo. Os níveis elevados de 2025, por exemplo, ilustram bem o cenário de desaceleração observado para a demanda.
Até o momento, as expectativas são de retomada da demanda com os preços menores e expectativas de boas safras nos principais produtores. Todavia, em caso das prolongamento ou escalada das disrupções do conflito no Oriente Médio de forma que os custos da indústria se mantenham elevados, uma eventual manutenção da inflação em níveis mais elevados pode ter impacto na retomada da demanda, contribuindo para um balanço ainda mais superavitário em 2026.
Atualização das condições climáticas no Brasil
O clima no Brasil tem se mantido estável, sustentando as análises que apontam para uma provável safra recorde, estimada pela StoneX em 75,3 milhões de sacas. O país avança agora para o período de estiagem mais pronunciada, o que torna os bons volumes de chuva acumulados até abril fundamentais para garantir níveis adequados de umidade no solo antes da fase mais seca que antecede a florada.
Conforme destacado no último relatório de pesquisa de safra da StoneX, nos meses de janeiro e fevereiro, as chuvas acumuladas nas principais regiões produtoras de café arábica superaram de forma significativa os volumes registrados no mesmo período de 2025. Além disso, ao se observar os indicativos de anomalia de precipitação dos últimos 30 dias, nota‑se que praticamente todas as áreas produtoras — tanto de arábica quanto de robusta — apresentaram volumes acima da média histórica para o período. Esse cenário reforça a leitura de continuidade favorável ao desenvolvimento das lavouras.
As previsões climáticas até o início de abril indicam anomalias levemente abaixo da média, com volumes diários mais modestos. No entanto, diante do comportamento observado ao longo de 2026 até o momento, esse cenário não configura, por ora, um fator de preocupação relevante.
Intensificação do El Niño
O Boletim Semanal de Tempo e Clima da StoneX, divulgado na última sexta‑feira (20), chamou atenção para a rapidez com que as probabilidades e a intensidade projetada do fenômeno El Niño têm aumentado. Na última quinta‑feira (18), as atualizações dos modelos de projeção de intensidade do International Research Institute for Climate and Society (IRI) em conjunto com o Climate Prediction Center (CPC/NOAA) apontaram uma mudança relevante: a linha média de intensidade, que até o mês anterior permanecia na faixa de El Niño fraco, passou a indicar intensidade moderada a partir do trimestre de agosto, setembro e outubro, conforme ilustrado no gráfico abaixo. Vale lembrar que na semana anterior, o NOAA já destacou enxergar um terço de chances de o mundo enfrentar um El Niño forte no último trimestre do ano.
Essa alteração em curto espaço de tempo tem elevado a atenção do mercado para um fenômeno que ganha cada vez mais consistência em termos de intensidade. No caso brasileiro, embora o El Niño costume, em linhas gerais, favorecer a produção quando comparado a um cenário de La Niña, uma intensidade elevada — associada a temperaturas significativamente acima da média — também pode gerar alguns riscos. Já para os produtores do Sudeste Asiático, o fenômeno tende a resultar em condições mais secas, o que pode impactar um período crucial do desenvolvimento final dos frutos no Vietnã, adicionando um elemento de risco à oferta regional.
Projeção de variação na temperatura de superfície do Oceano Pacífico (em ºC) 
Fonte: IRI/CPC, NOAA. Elaboração; StoneX.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.