Comentários de Abertura
Wall Street continua em baixa devido aos temores de recessão nesta manhã, com os futuros das ações atingindo novas mínimas antes de se estabilizarem durante a noite. Os investidores seguem receosos com uma possível recessão diante da enxurrada de tarifas implementadas e/ou ameaçadas nos últimos dias pelo governo Trump. Autoridades dos Estados Unidos estão hoje na Arábia Saudita, reunindo-se com representantes da Ucrânia para buscar um caminho para a paz na Região do Mar Negro. O VIX está sendo negociado próximo de 28 neste momento, após atingir uma nova máxima de sete meses, pouco abaixo de 30, na segunda-feira. O dollar index continua em queda, sendo negociado próximo de 103,4, atingindo mínimas de quase cinco meses. Os títulos de 10 anos do Tesouro dos EUA estão em torno de 4,24%, enquanto os dos títulos de 2 anos estão próximos de 3,91%. Os preços do petróleo bruto subiram 1,5% hoje, após encontrarem algum suporte na região dos US$ 65 por barril, enquanto os mercados de grãos e oleaginosas operam de forma mista.
A China impôs hoje tarifas de 25% sobre as importações de carne suína do Canadá, além de tarifas de 10% sobre a carne suína proveniente dos Estados Unidos. Essas tarifas afetarão cerca de 11% das importações chinesas de carne suína congelada. No entanto, a China pode substituir esse volume com carne suína de outras fontes – provavelmente do Brasil e/ou da Europa. O consumo de carne suína na China está atualmente reduzido devido a dificuldades econômicas internas. As importações chinesas de carne suína congelada caíram em um terço em 2024 devido à queda na demanda. A China tem sido bastante seletiva em suas medidas retaliatórias, escolhendo áreas que minimizam o impacto sobre sua economia já fragilizada. Relatos da mídia ainda indicam que o ex-presidente Trump pode visitar a China já no próximo mês para uma reunião presencial com o presidente chinês Xi Jinping, mas tais conversas só ocorrerão se os negociadores avançarem no fechamento de um acordo, mesmo que parcial. Até o momento, as negociações estão emperradas em níveis inferiores, levantando dúvidas sobre a viabilidade dessa visita em um futuro próximo.
A Iniciativa do Cinturão e Rota da China continua sendo uma via para ampliar sua influência econômica, ao mesmo tempo em que aumenta a dependência de um número crescente de países em relação ao seu bem-estar econômico. No entanto, essa iniciativa tem sido alvo de maior escrutínio por parte do Ocidente exatamente por esse motivo. Como resposta, a China parece estar modificando a narrativa, referindo-se cada vez mais ao conceito de "Sul Global". O Sul Global é um termo usado para descrever um grupo de países geralmente classificados como em desenvolvimento, menos desenvolvidos ou subdesenvolvidos, localizados principalmente na África, Ásia e América Latina. Esse grupo também é conhecido como o "Grupo dos 77", uma coalizão de países em desenvolvimento formada em 1964. Ironicamente, a maioria dos países que fazem parte da Iniciativa do Cinturão e Rota também pertence ao Sul Global. O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, mencionou o termo "Sul Global" 22 vezes durante uma coletiva de imprensa realizada na última semana, paralelamente à reunião das Duas Sessões (evento político de grande importância na China). Isso sugere que a liderança chinesa discutiu estrategicamente a nova imagem que deseja projetar. Analistas acreditam que a China busca alavancar de forma estratégica a dependência dos países da Iniciativa do Cinturão e Rota, especialmente em meio ao aumento das pressões geopolíticas do Ocidente.
Negociadores dos Estados Unidos estão se reunindo hoje com representantes da Ucrânia, na Arábia Saudita, para discutir possíveis caminhos para a paz na Região do Mar Negro. A Ucrânia deu início às discussões com seu maior ataque a Moscou até o momento. Centenas de drones foram utilizados no ataque, com pelo menos 91 sendo abatidos na área de Moscou e arredores. Os Estados Unidos estão pressionando a Ucrânia a aceitar um caminho para a paz que envolva a cessão de territórios ocupados pela Rússia e a renúncia à sua intenção de ingressar na OTAN. Em contrapartida, a segurança da Ucrânia seria garantida pelos Estados Unidos, que teriam acesso a recursos naturais estratégicos, como minerais de terras raras, espalhados pelo território ucraniano. A Rússia provavelmente não atacaria a Ucrânia se: (a) não precisasse mais se preocupar com sua adesão à OTAN, e (b) cidadãos dos Estados Unidos estivessem distribuídos pelo país. A Rússia não deseja um conflito direto com os Estados Unidos, pois isso poderia resultar em um confronto de grandes proporções caso ataques russos atingissem cidadãos americanos. Embora um acordo ainda pareça distante, cresce a esperança de que um entendimento possa ser alcançado para encerrar o conflito. Além disso, o acesso dos EUA aos minerais de terras raras da Ucrânia poderia reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China, assim como o acesso a minerais estratégicos da Groenlândia. Um acordo de paz na Ucrânia também abriria espaço para um diálogo mais próximo entre o presidente russo Putin e o ex-presidente Trump, o que preocupa a China, pois isso poderia resultar em um isolamento de Xi Jinping. As linhas geopolíticas globais estão sendo redesenhadas, o que impactará o comércio internacional daqui para frente.
Os preços dos grãos e oleaginosas se estabilizaram após a segunda suspensão das tarifas impostas ao Canadá e ao México, mas poucos operadores de mercado consideram a situação realmente estável. Vimos alguma compra por parte dos usuários finais nos níveis de preços mais baixos, mas a base do mercado ainda parece instável, à medida que essa realinhamento global toma forma. O país mais crítico para os mercados de commodities é o México. Nos últimos 10 a 15 anos, os Estados Unidos vêm perdendo espaço para o Brasil como fornecedor para a China, já que a expansão da produção agrícola brasileira garante preços mais competitivos, especialmente enquanto a moeda brasileira permanece desvalorizada. No entanto, o México é um mercado em crescimento que os Estados Unidos não podem se dar ao luxo de perder. Felizmente, o México também não pode se dar ao luxo de perder os Estados Unidos como fornecedor. Dessa forma, ainda há a percepção de que um acordo poderá ser alcançado em breve.


