Comentários de Abertura
E a saga continua. Grande parte do mundo pode estar pedindo para negociar tarifas mais baixas, mas a China não está — o que leva a uma escalada ainda maior da guerra tarifária. Os futuros de ações despencaram com a notícia, com o índice de volatilidade VIX subindo novamente, chegando a ser negociado a 58, antes de recuar para cerca de 52 atualmente. O dollar index caiu fortemente durante a noite, sendo negociado próximo de 102,0. Os títulos de 10 anos do Tesouro chegaram a ultrapassar 4,5% em determinado momento, atingindo quase o maior nível em sete semanas, embora estejam atualmente em torno de 4,38%, enquanto os títulos de 2 anos estão próximos de 3,77%. Vale observar o aumento repentino da curva de rendimentos nos últimos um ou dois dias. Os preços do petróleo bruto caíram para novas mínimas de quatro anos com as notícias da China, chegando a ser negociados na faixa dos US$ 55 por barril em determinado momento. Enquanto isso, o setor de grãos e oleaginosas resistiu bem às fortes quedas dos mercados externos.
O presidente Trump aumentou a tarifa sobre produtos chineses para 104% à meia-noite passada, cumprindo sua promessa de intensificar tarifas sobre qualquer país que retaliar suas tarifas recíprocas. A China respondeu aumentando sua tarifa retaliatória para 84%. No fim das contas, importa pouco se a tarifa é de 34%, 54% ou 84% — em qualquer um desses níveis, o comércio praticamente é paralisado. Agora trata-se apenas de manter as aparências e parecer forte. Canadá e Europa indicaram que também estão trabalhando em tarifas retaliatórias, embora ambos também tenham dito que, primeiro, buscariam uma solução negociada. O governo Trump tem uma longa lista de países com quem negociar — alguns dizem que cerca de 70 países pediram para negociar tarifas mais baixas. Acordos comerciais podem ter mil páginas ou mais. Portanto, levam tempo considerável. Agora multiplique isso por 70 ou mais. Vai levar tempo.
Mas o presidente Trump pode não ter esse tempo. Ele precisa ver algumas negociações bem-sucedidas serem concluídas em breve. Wall Street também precisa ver negociações bem-sucedidas em breve. Eu afirmei ontem que esta semana provavelmente seria uma semana de negociações voláteis, baseadas no fluxo de manchetes. Isso pode se transformar em um movimento de fundo, mas apenas se os níveis mínimos anteriores forem mantidos. Esse será um dos fatores-chave para o sentimento do mercado sempre que manchetes negativas fizerem as ações caírem. Também afirmei na semana passada que é difícil para qualquer ativo manter uma alta quando o VIX está acima de 30, devido aos altos níveis de medo, a menos que esse ativo tenha uma narrativa forte. Vale notar que os grãos e oleaginosas estão mantendo seu valor, mesmo com o VIX sendo negociado na faixa dos 40 e 50. Talvez os gestores de fundos acreditem que as commodities alimentares sejam as menos propensas a sofrer com tarifas retaliatórias generalizadas que prejudicariam a demanda — embora eu não contaria com isso. Esta é, de fato, uma semana crucial para os mercados, se quisermos tranquilizar o consumidor.
A proposta de tarifa portuária da Seção 301 tem potencial para ser ainda mais disruptiva do que a guerra tarifária. Já expliquei anteriormente como tarifas de US$ 500 mil a US$ 1,5 milhão seriam aplicadas a embarcações construídas na China e operadores com navios chineses em sua frota a cada parada em porto. Já afirmei antes que acreditava que o governo Trump avançaria com algum tipo de proposta da Seção 301, mas que seria mais pragmática quando finalmente divulgada. Isso foi confirmado na terça-feira, quando o Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, testemunhou perante o Comitê de Finanças do Senado. Ele afirmou que o governo está revisando o plano com base no feedback do público. Espera-se que essas revisões sejam mais baseadas na capacidade dos navios, além de aliviar as tarifas para embarcações que transportem exportações agrícolas. A incerteza sobre essas possíveis tarifas já fez com que transportadoras incluam cláusulas em seus contratos, estipulando que o comprador dos produtos transportados será responsável por quaisquer tarifas portuárias que venham a ser cobradas — o que tem feito alguns transportadores hesitarem em assumir contratos envolvendo portos dos EUA. O Wall Street Journal também relatou que dois grandes operadores de navios porta-contêineres europeus suspenderam 30 pedidos de novas embarcações em estaleiros chineses, buscando transferir esses pedidos principalmente para estaleiros coreanos e japoneses.
A Secretária de Agricultura dos EUA, Brooke Rollins, disse a repórteres que está preparando a infraestrutura para pagamentos a agricultores, se necessário, caso a guerra tarifária gere dificuldades excessivas ao setor agrícola. Outras autoridades em Washington, D.C., confirmaram que discussões sobre um plano de assistência aos agricultores estão em andamento. Ainda é cedo para saber qual será o escopo de um possível programa de pagamentos, mas as conversas estão ocorrendo. No entanto, se esses pagamentos acontecerem, é provável que ainda estejam a meses de distância. Enquanto isso, os preços no mercado físico de milho e soja estão disparando no Brasil, à medida que os agricultores brasileiros antecipam se beneficiar da guerra tarifária entre Trump e a China. Na prática, o cenário comercial entre China e Estados Unidos para milho, soja, trigo e sorgo mudou pouco em relação ao que era há um mês ou até seis meses. A China vem se afastando da dependência das commodities agrícolas dos EUA há anos — e continua fazendo isso. Ela ainda encontrará maneiras de comprar o que precisa de nós — já havia isentado tarifas no governo Trump 1.0 para adquirir o que precisava —, mas continuará se desvinculando da dependência dos Estados Unidos. As taxas de câmbio estão influenciando esse movimento, mas as divergências geopolíticas também. A China tem pouco incentivo para enviar seu dinheiro a um país que declarou querer derrubar do topo da montanha econômica.


