Comentários de Abertura
Os futuros de ações subiram fortemente na noite passada após o anúncio de que as negociações do fim de semana em Genebra resultaram em um acordo temporário com a China. A euforia também contagiou o setor de commodities, na expectativa de que o acordo aumente a demanda por commodities dos EUA e ao mesmo tempo amenize muitas das disputas tarifárias globais. O VIX recuou para abaixo de 20 nesta manhã, pela primeira vez desde 28 de março, enquanto várias ações atingiram patamares não vistos desde março. O dollar index firmou-se em torno de 101,6, seu nível mais alto desde 10 de abril. Os rendimentos dos Títulos do Tesouro de 10 anos estão perto de 4,47%, e os dos Títulos de 2 anos, em torno de 4,00%. Os preços do petróleo bruto avançaram 4% no início da manhã, ao passo que as commodities agrícolas ficaram mistas. Os preços da soja dispararam quase 2%, seguidos pelo milho, em função das expectativas de maior demanda chinesa, enquanto o trigo enfrentou resistência antes do relatório WASDE de hoje do USDA.
China e Estados Unidos fecharam, no fim de semana, um acordo para reduzir tarifas por 90 dias, ganhando tempo para negociar um pacto comercial mais abrangente. Os EUA aceitarão abaixar suas tarifas recíprocas para 30%, ante os atuais 145%. Em contrapartida, a China reduzirá suas tarifas para 10%, ante os atuais 125%. Segundo o acordo, tarifas setoriais específicas permanecerão em vigor, ao menos por enquanto. Assim, espera-se que os EUA prossigam seu trabalho de reequilíbrio em áreas como medicamentos, semicondutores e aço, setores nos quais o presidente Trump enxerga vulnerabilidades na cadeia de suprimentos. Os EUA continuam pressionando a China sobre o fornecimento de fentanil, mas as conversas nesse tema correram em um canal à parte e foram consideradas muito construtivas.
O avanço alcançado no fim de semana foi impressionante, superando as expectativas dos observadores mais otimistas. Os negociadores se encontraram em um terraço ao ar livre com vista para o Lago de Genebra — um ambiente que favoreceu conversas descontraídas e a construção de relações entre as partes. Essa construção de relacionamento é fundamental na cultura chinesa para fechar negócios, e ambas as partes escolheram representantes que se encaixassem melhor nesse estilo. Contudo, trata-se apenas de um acordo de 90 dias, e ainda há muito trabalho pela frente para resolver todas as questões pendentes. Espera-se que os pedidos de mercadorias disparem, pois os varejistas buscarão recompor estoques durante essa janela de 90 dias, caso o acordo não se confirme até agosto, quando ela expira. Ainda assim, o progresso registrado animou investidores de Wall Street, que acreditam ter sido evitada uma recessão doméstica e global mais ampla. Isso impulsionou a compra ativa de petróleo, na expectativa de que o acordo estimule o crescimento econômico, enquanto os mercados de grãos e oleaginosas tentaram seguir esse ritmo. Deve-se observar, porém, que o Brasil continuará oferecendo soja mais barata à China nos próximos 90 dias, independentemente das tarifas, de modo que a questão central permanece se haverá um acordo que obrigue a China a comprar mais grãos e oleaginosas dos EUA no futuro.
O presidente brasileiro Lula estará em Pequim esta semana para se reunir com o presidente Xi sobre as relações comerciais entre os dois países. O Brasil busca aproveitar as atuais tensões comerciais entre China e EUA para assinar mais acordos com a China. O país já desfruta de vantagem cambial sobre os EUA nas vendas à China, mas deve fechar pactos que atraiam mais recursos chineses para financiar sua infraestrutura. Recentemente, a China inaugurou um grande porto no Peru e demonstra interesse em financiar uma ferrovia sobre a Cordilheira dos Andes até o coração da região Centro-Oeste produtora de soja no Brasil, o que reduziria ainda mais os custos de frete das exportações brasileiras. A soja brasileira embarcada hoje para a China estava 70 centavos de dólar por bushel mais barata do que a soja dos portos do Golfo dos EUA, e isso antes de quaisquer tarifas retaliatórias.
Tivemos um revés na relação com o México no fim de semana, quando os EUA mais uma vez suspenderam as importações de gado, cavalos e bisões vindos daquele país, por receio da mosca-da-bicheira-do-novo-mundo. As importações haviam sido interrompidas no ano passado, até que se definisse um processo de inspeção aceitável para evitar a entrada desse parasita nos EUA por meio de animais provenientes do México. O secretário do USDA, Rollins, manifestou novas preocupações sobre o inseto no início do ano, mas um acordo foi reestabelecido. No entanto, Rollins reinstaurou a suspensão no domingo, mês a mês, para pressionar o México a intensificar os esforços de controle, ressaltando que levaram 30 anos para erradicá-lo da última vez em que entrou no país. A medida deve apertar ainda mais o suprimento de gado nos EUA, justamente quando o rebanho norte-americano já está reduzido por uma seca de vários anos no Oeste.
Hoje o foco principal é o relatório WASDE do USDA para a safra agrícola, mas logo em seguida a atenção deve voltar às expectativas de que a EPA divulgue mandatos de produção de biodiesel de biomassa na próxima semana a dez dias, conforme indicaram comentários internos da agência. Obviamente, as manchetes sobre as negociações comerciais continuarão influenciando o mercado.


