
25 de setembro – Os grãos e oleaginosas estão reagindo de forma baixista à falta de avanços nas negociações de ontem entre EUA e China, e não estou falando apenas dos pandas. Embora o tom geral da cúpula tenha sido de reconciliação e diplomacia, algo bem-vindo em meio às tensões geopolíticas em curso, até o momento desta redação não houve nenhum anúncio concreto de novos acordos de compra de commodities agrícolas americanas pela China. É animador ver a prorrogação de dois meses da trégua comercial vigente, agora estendida até 10 de janeiro, assim como os planos de novas reuniões entre os dois lados nesse período. Ainda assim, parte da posição especulativa comprada acumulada antes do encontro claramente reage com decepção ao curto prazo da extensão e à ausência de um acordo mais amplo. O fato de a China continuar comprando soja americana, como mostrou o novo anúncio de venda-relâmpago (flash sale) de ontem, é um sinal positivo. Porém, ainda não vimos nenhuma evidência de progresso real nos supostos US$ 17 bilhões em compras agrícolas fora a soja, nem qualquer confirmação desse acordo por parte da China.
Vale lembrar que vimos um padrão parecido nas duas cúpulas anteriores entre EUA e China. Tanto nas reuniões de outubro de 2025, na Coreia do Sul, quanto na visita de Trump à China em maio deste ano, o mercado chegou com grandes expectativas de anúncios importantes e acabou decepcionado com os poucos resultados concretos do evento em si. No entanto, em ambos os casos, a Casa Branca divulgou dois dias depois fichas informativas com os detalhes dos acordos, durante o fim de semana, com os mercados fechados, o que levou a uma retomada das compras especulativas. Não há garantia de que esse padrão vá se repetir, mas é algo a ter em mente com a chegada deste fim de semana. O comunicado oficial divulgado pela China durante a madrugada trouxe Xi mencionando que os dois lados chegaram a um "novo arranjo conjunto", mas sem detalhar o que isso significa nem incluir compromissos específicos de compra. Isso é prática comum do lado chinês. O ponto-chave a acompanhar será o que o lado americano divulgar nos próximos dias. Nesse sentido, o Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou nesta manhã que os dois lados chegaram a acordos sobre um conjunto de produtos que poderão ser comercializados, com os detalhes a serem divulgados na segunda-feira. Ainda assim, recomendo ficar atento à possibilidade de detalhes surgirem ao longo do fim de semana, antes do anúncio previsto.
Esta semana também registrou um aumento notável nos esforços de mediação para o escoamento de commodities pelo Mar Negro. A Turquia continua pressionando pela retomada de algo semelhante à Iniciativa de Grãos do Mar Negro, que ajudou a intermediar no início da guerra. Outros grandes compradores de commodities da região também aderiram à iniciativa hoje, com Índia, Egito e outros países do Oriente Médio apoiando propostas para um acordo que retome esse fluxo. O que chama atenção nessa nova ofensiva é que o foco está na navegação pelo Mar Negro em si, e não em torná-la parte de um acordo de paz mais amplo. A Ucrânia sinalizou publicamente disposição para aceitar essa trégua, mas a Rússia segue como a maior incógnita. Moscou não cedeu em suas exigências até agora, mas, depois de meses de danos econômicos significativos, pode ter incentivos para aceitar um acordo mais restrito. Os EUA propuseram negociações trilaterais para levar Rússia e Ucrânia de volta à mesa de forma direta, com os Emirados Árabes Unidos como possível anfitrião. Por enquanto, são apenas palavras, e os mercados de commodities se importam mais com ações. Os esforços recentes de mediação ainda não resultaram em nenhuma mudança significativa na prática, já que os dois lados seguem se atacando e, no fim das contas, bloqueando o fluxo de commodities pelo Mar Negro. Mesmo assim, a simples perspectiva de uma melhora nesse fluxo pode deixar nervosos os fundos (managed money) que carregam grandes posições especulativas compradas.
Os futuros das bolsas americanas apontam para uma abertura positiva, em meio ao otimismo com a ofensiva diplomática desta semana, e buscam fechar uma semana de ganhos sólidos para o Nasdaq e o S&P 500. O VIX também reflete esse alívio, recuando para perto de 15,0 depois de tocar ontem a máxima em mais de uma semana, próxima de 16,6. O dólar devolve parte dos fortes ganhos da semana no início do dia e cai 0,3% no momento desta redação, voltando a ser negociado um pouco abaixo dos 101 pontos. A disparada dos rendimentos dos Treasuries, porém, mantém certo nervosismo em Wall Street, com novas máximas de vários anos registradas ao longo de toda a curva nesta semana. Os rendimentos de 2 anos começam o dia perto de 4,90%, os de 10 anos logo abaixo de 5,19% e os de 30 anos logo abaixo de 5,48%. O petróleo recua com cautela diante da retomada das conversas entre EUA e Irã nesta semana e da já mencionada pressão por uma trégua no Mar Negro entre Rússia e Ucrânia. O WTI de primeiro vencimento cai 2%, negociado perto de US$ 92,90, e o Brent de primeiro vencimento recua 1,5%, perto de US$ 98,70. As agrícolas abrem o dia em forte queda, com a percepção de que não houve avanço concreto em novos compromissos de compra pela China e com a nova ofensiva diplomática no Mar Negro. Milho, soja e trigo caem mais de dez cents no momento desta redação.
Os pedidos de bens duráveis de agosto superaram as expectativas no dado divulgado nesta manhã. O número principal ficou estável na comparação mensal, abaixo da alta de 0,9% de julho (revisada para baixo), mas bem melhor que a queda de 0,4% esperada em média pelos analistas. A fraqueza no número principal parece concentrada em equipamentos de transporte, já que os pedidos excluindo transporte subiram 0,3%. Já os pedidos de bens de capital núcleo, excluindo aeronaves, saltaram 1,6%, o que sugere que o investimento empresarial de fundo segue bem mais forte do que o dado principal estável dá a entender. Os detalhes reforçam o quadro mais amplo de uma economia americana resiliente, sobretudo porque os gastos de capital núcleo mostram uma força muito maior do que a leitura estável dos bens duráveis sugere. Vale lembrar que, em certa medida, voltamos ao cenário de "notícia boa é notícia ruim", já que essa força de fundo é vista como argumento para o Fed continuar subindo os juros.