
28 de setembro: os futuros das bolsas americanas apontam para uma abertura em queda no início da semana, com Nasdaq e S&P 500 ainda bem próximos de suas máximas históricas, enquanto o Dow Jones segue como o índice mais fraco entre os principais, mantendo uma clara tendência de baixa após tocar na semana passada a mínima em mais de três meses. O VIX começa a semana em alta, mas ainda perto do piso do intervalo de 2026, oscilando pouco acima de 16 no momento em que escrevo. O dólar volta a subir após fortes ganhos semanais, apesar do fechamento em queda na sexta-feira, e é negociado a 101,16 na abertura do dia. Os rendimentos dos Treasuries devem ficar no centro das atenções nesta semana, já que dão sinais de retomar o movimento de alta: o de 2 anos sobe para 4,91%, o de 10 anos para 5,215% e o de 30 anos se aproxima de 5,53%. O petróleo avança, mas grãos e oleaginosas operam em queda generalizada, com os fundos especulativos comprados mostrando sua frustração com a falta de avanços mais concretos entre EUA e China.
A ofensiva diplomática da semana passada entre EUA e Irã reabriu um caminho para as negociações, mas os dois lados seguem distantes quanto às concessões necessárias para transformar a retomada do diálogo em um acordo de paz duradouro. No fim de semana, o presidente Trump afirmou ter rejeitado a proposta iraniana mais recente, mas sinalizou que espera a continuidade das conversas nesta semana. Com isso, o petróleo aponta para cima na abertura da semana: os contratos mais próximos do WTI e do Brent sobem 2,3% no momento em que escrevo, sendo negociados perto de US$ 94,60 e US$ 99,70, respectivamente. A escalada entre Rússia e Ucrânia também acrescenta prêmio de risco. Entre o fim de semana e esta segunda-feira, a Ucrânia atacou uma refinaria e instalações de armazenamento de petróleo no Krai de Krasnodar, enquanto a Rússia manteve forte pressão sobre a infraestrutura logística e energética ucraniana. Isso coloca em dúvida a diplomacia da semana passada, já que a proposta de contenção nos ataques à infraestrutura energética claramente ainda não se concretizou. Ainda assim, o mercado de grãos seguirá atento a avanços na iniciativa da Turquia de retomar algo parecido com a Iniciativa de Grãos do Mar Negro de 2022/23.
EUA e China chegaram a um acordo sobre um marco de alívio tarifário recíproco de US$ 30 bilhões para cada lado, com cerca de 90% dos produtos abrangidos voltando, com o tempo, às tarifas de Nação Mais Favorecida assim que os trâmites internos forem concluídos. O anúncio do fim de semana tem mais substância do que o comunicado da cúpula divulgado na sexta-feira, mas trata-se principalmente de um acordo de acesso a mercados, e não de um novo compromisso chinês de compras. Embora o acordo continue indicando uma distensão que pode estabilizar as relações comerciais e melhorar a competitividade dos produtos agrícolas americanos na China, o mercado ainda mostra frustração com a ausência de compromissos concretos de compra, como mostra a ampla onda de vendas na abertura de hoje. O comunicado da Casa Branca mencionou a criação de um grupo de trabalho dedicado ao acesso ao mercado agrícola, e o Representante Comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que o governo continuará "garantindo o cumprimento dos compromissos de compras agrícolas e de energia". A China confirmou o grupo de trabalho em seu próprio comunicado, informando que a primeira reunião está prevista para antes do fim de 2026. Isso mantém aberta a possibilidade de uma demanda chinesa maior por produtos agrícolas americanos mais adiante, mas não garante um aumento significativo no curto prazo.
Curiosamente, a soja ficou de fora da lista de US$ 30 bilhões de produtos contemplados pelo alívio tarifário, e apenas as sementes de soja foram incluídas. Para mim, isso parece uma tática de negociação. A China está disposta a usar compras de soja direcionadas pelo Estado para cumprir o compromisso político e, somente com as compradoras estatais, já passou da metade do acordo de 25 milhões de toneladas. Por outro lado, ainda não está disposta a normalizar o comércio comercial de soja de forma mais ampla eliminando a tarifa, o que abriria essa demanda para as esmagadoras privadas do país. Milho, trigo, sorgo, carne bovina e carne suína foram todos incluídos, um passo potencialmente relevante para ampliar o comércio mais à frente, mas que novamente foi recebido com certa decepção pelo mercado, que já vinha precificando um otimismo considerável. Como mostra o gráfico abaixo, a retirada dessa tarifa torna o milho americano mais competitivo neste outono (do Hemisfério Norte) em relação às principais origens concorrentes, sobretudo a América do Sul, já que os embarques ucranianos seguem em grande parte interrompidos. Ainda assim, no curtíssimo prazo, o produto americano continua um pouco caro, dado o forte programa de exportação da Argentina após sua safra recorde de milho.
No fim das contas, a cúpula gerou avanços concretos, mas não chegou a resolver várias das disputas estruturais mais importantes. As tarifas sobre a soja comercial seguem praticamente intocadas, os controles de exportação de terras raras e minerais críticos ainda estão em negociação, e a implementação das reduções tarifárias mais amplas dependerá do cumprimento por parte dos dois governos. Com a trégua comercial atual estendida até janeiro, essas questões pendentes, junto com o ritmo das compras agrícolas chinesas, devem continuar sendo as maiores fontes de incerteza rumo à próxima rodada de negociações. Os mais céticos podem interpretar isso como a China basicamente ganhando tempo para ver como o cenário geopolítico evolui nos próximos meses antes de assumir compromissos realmente concretos, o que tende a manter o mercado sensível às manchetes. Vale notar também que o comunicado chinês deu destaque explícito a Taiwan, informando que Xi pediu aos EUA que se oponham à independência taiwanesa e tratem o tema com cautela, enquanto o lado americano não mencionou o assunto. Aparentemente, não houve divulgação pública de discussões sobre o pacote de venda de armas a Taiwan de cerca de US$ 14 bilhões, já autorizado pelo Congresso, mas ainda não aprovado por Trump. Esse pode ser um dos pontos pendentes mais importantes a acompanhar daqui em diante.
