
30 de setembro – Uma série de dados capazes de movimentar os mercados será divulgada ao longo do dia, e a coincidência com o fechamento do mês e do trimestre pode tornar o pregão bastante volátil. A manhã trouxe praticamente a melhor combinação macroeconômica possível: crescimento econômico subjacente dos EUA bem mais forte e resiliência contínua do mercado de trabalho, acompanhados de uma inflação abaixo do esperado, justamente no indicador de inflação preferido do Fed. Com isso, os futuros de ações apontam para uma abertura em alta, enquanto o VIX recua com força após as divulgações e gira em torno de 15,8 no momento em que este texto é escrito. O dólar também inverteu a trajetória e passou a cair, à medida que o mercado começa a precificar uma necessidade menor de altas imediatas de juros pelo Fed. A moeda recua pouco mais de 0,2% no dia, negociada perto de 101,15. Os rendimentos dos Treasuries também caem de forma expressiva após as divulgações, sobretudo na ponta curta da curva, onde o Fed tem maior controle. O título de 2 anos voltou para 4,83%, o de 10 anos está em 5,22% e o de 30 anos, em 5,58%. O petróleo tenta interromper a sequência recente de quedas, com o WTI de primeiro vencimento subindo 2%, perto de US$ 90,70, e o Brent de primeiro vencimento avançando 1,4%, próximo de US$ 97,50. As commodities agrícolas começam o dia majoritariamente em alta, com as atenções voltadas para os relatórios de Estoques Trimestrais de Grãos (Quarterly Grain Stocks) e de Resumo dos Grãos Pequenos (Small Grain Summary), previstos para as 11h00 no horário de Chicago.
O relatório de emprego da ADP desta manhã superou com folga as expectativas: as empresas privadas contrataram 90 mil trabalhadores em setembro, acima da média das estimativas dos analistas, de 70 mil, e igualando a projeção mais alta. O número representa uma recuperação bastante forte em relação a agosto, quando as contratações caíram para 36 mil, dado ligeiramente revisado para baixo frente aos 38 mil divulgados originalmente. É também o melhor resultado do indicador desde junho. O avanço foi relativamente disseminado. Os maiores ganhos vieram de educação e saúde (+55 mil), seguidos por lazer e hospitalidade (+22 mil), indústria de transformação (+17 mil) e construção (+15 mil). As maiores perdas ficaram com atividades financeiras (-16 mil) e serviços profissionais e empresariais (-11 mil), e recursos naturais e mineração (-1 mil) foi a única outra categoria com retração mensal. De modo geral, o relatório indica uma resiliência renovada do mercado de trabalho americano em setembro, o que ameniza parte da decepção com o número principal de vagas em aberto do relatório JOLTs de agosto, divulgado ontem. Para os mercados, porém, a força do emprego nos EUA pode ser interpretada como mais um sinal verde para que o Fed siga com o ciclo de altas.
O crescimento econômico dos EUA também surpreendeu positivamente, com o PIB do 2º trimestre revisado para 2,2%, ante a estimativa inicial de 1,5%. O 1º trimestre também foi revisado de forma expressiva para cima, passando a mostrar crescimento de 2,5%, contra os 1,5% divulgados anteriormente. A revisão não se deveu principalmente a um efeito estatístico de estoques ou do comércio exterior. Ela refletiu um consumo das famílias e investimentos empresariais bem mais fortes, com a demanda doméstica privada subjacente crescendo em ritmo consideravelmente acima do que sugerem os 2,2% do número principal. Os gastos reais do consumidor subiram 3,8% no 2º trimestre em relação ao trimestre anterior, acima dos já expressivos 3,4% divulgados antes, e registraram o maior avanço trimestral desde o 4º trimestre de 2024. Ainda sobre a força do consumo americano, os gastos pessoais ajustados pela inflação cresceram 0,6% em agosto na comparação mensal, uma aceleração relevante frente à alta de 0,1% em julho e o ritmo mais forte desde março de 2025.
O PCE cheio de agosto veio um pouco abaixo do esperado, com alta de 3,4% na comparação anual e de 0,3% na mensal, ambos inferiores às médias das estimativas dos analistas, de 3,7% e 0,4%, respectivamente. Melhor ainda, o dado de julho foi revisado ligeiramente para baixo e agora mostra alta anual de 3,4%, ante os 3,7% divulgados anteriormente. Excluindo os componentes mais voláteis de alimentos e energia, o núcleo do PCE subiu 3,0% no ano e 0,2% no mês, também abaixo das projeções de 3,3% e 0,3%, respectivamente. Assim como no índice cheio, o núcleo de julho foi revisado para baixo e passou a indicar altas de 3,0% no ano e 0,1% no mês. Evidentemente, a inflação segue bem acima da meta de 2,0% do Fed, mas o resultado traz um alívio claro para um mercado que temia a retomada da inflação. Diante do acúmulo contínuo de pressões inflacionárias no nível do produtor, o receio de inflação mais alta e, consequentemente, de juros mais elevados à frente continua presente, mas o dado de hoje deve amenizar em parte o tom mais hawkish atual. Somado às declarações de ontem do presidente do Fed de Nova York, John Williams, de que, após a alta de setembro, "não há necessidade de urgência", o mercado deve passar a apostar na manutenção dos juros pelo Fed em outubro, voltando as atenções para a reunião de dezembro e para o que vem em 2027.
A disparada recente dos rendimentos dos Treasuries levou a taxa média das hipotecas de 30 anos ao maior nível em quase três anos, subindo para 7,30% na semana encerrada em 25 de setembro, ante 7,12% na semana anterior, o patamar mais alto desde novembro de 2023. O aumento de 18 pontos-base na comparação semanal foi o maior desde abril de 2025. Em resposta, o total de pedidos de hipoteca caiu 6,0% na semana, a queda semanal mais acentuada desde julho, levando o Índice do Mercado Hipotecário da Mortgage Bankers Association (MBA) ao menor nível desde fevereiro de 2025. Como era de se esperar, a fraqueza foi puxada principalmente pela queda semanal de 8,7% nos pedidos de refinanciamento, embora os pedidos para compra de imóveis também tenham registrado a maior queda semanal desde o início de julho, com recuo de 4,3%. Com isso, o índice de compras da MBA atingiu o menor nível desde abril de 2025.
