
16 de outubro – Os futuros das bolsas apontam para uma abertura mista, mantendo o tom da semana volátil vista até aqui, com o mercado acionário em geral avançando, mas com uma notável migração de recursos do setor de tecnologia para outras áreas. O VIX recua de forma expressiva no início do dia e volta à faixa dos 16 pontos, depois de atingir ontem uma nova máxima de um mês, acima de 18. O dólar amplia as perdas de ontem, com queda de 0,2% no momento em que escrevo, sendo negociado perto de 101,8 após tocar a mínima de duas semanas durante a madrugada. Os rendimentos dos Treasuries sobem levemente nesta manhã: o de 2 anos está perto de 4,76%, o de 10 anos em 5,11% e o de 30 anos logo acima de 5,44%. O petróleo caminha para encerrar uma semana forte em tom fraco. O WTI de vencimento mais próximo recua 1,6%, para cerca de US$ 96, depois de marcar ontem uma nova máxima de quatro semanas, enquanto o Brent de vencimento mais próximo opera praticamente estável, perto de US$ 105,9, no momento em que escrevo. As commodities agrícolas iniciam o dia majoritariamente em baixa, mas vale observar se os dados de exportação desta manhã, comentados abaixo, trarão algum fôlego na abertura.
O relatório de vendas de exportação do USDA, adiado pelo feriado e divulgado nesta manhã, mostrou recuperação nas vendas de milho, para 44,2 milhões de bushels na semana encerrada em 8 de outubro. É a máxima em cinco semanas, com o México como principal destino. O volume ficou praticamente em linha com a média dos cinco anos anteriores para vendas semanais de milho, mas novamente abaixo do ano passado. As vendas acumuladas de milho da safra 2026/27 somam agora 814 milhões de bushels, 32,7% abaixo do ritmo do ano anterior. Como o USDA acrescentou mais 25 milhões de bushels à sua projeção de demanda de exportação de milho para 2026/27 no WASDE de outubro, divulgado na semana passada, o mercado precisa ver um aumento significativo nas vendas efetivas para recuperar o ritmo necessário. Caso contrário, essa estimativa corre o risco de ser revisada para baixo. Vale destacar que o relatório de hoje é a primeira semana completa de dados de vendas de exportação dos EUA após a surpresa nos estoques trimestrais de 30 de setembro, que pressionou fortemente os preços do milho. O relatório da próxima semana também desperta bastante interesse, pois trará o primeiro retrato das vendas americanas de milho após a segunda surpresa baixista do USDA, no WASDE de outubro. Minha expectativa é de uma recuperação expressiva, à medida que compradores que estavam à margem, observando a alta dos preços, passem a aproveitar a correção. O anúncio de venda diária (flash sale) desta manhã, de 127 mil toneladas (5,0 milhões de bushels) de milho para o Japão, pode ser um sinal disso.
Já as vendas semanais de soja e trigo vieram próximas ao piso das expectativas, com 21,1 milhões e 11,8 milhões de bushels, respectivamente. Na soja, a China voltou a ser o principal comprador, como ao longo de todo o ano, com uma enxurrada de vendas diárias anunciadas nesta semana, inclusive hoje. O USDA reportou nesta manhã vendas diárias de soja que totalizaram 794 mil toneladas (29,2 milhões de bushels). Desse volume, 558 mil toneladas (20,5 milhões de bushels) foram destinadas à China e as 236 mil toneladas restantes (8,7 milhões de bushels) a destinos não revelados, que possivelmente também são a China. Com isso, o total dos últimos três dias chega a expressivas 1,877 milhão de toneladas (69,0 milhões de bushels), o que ajuda a compensar parte da decepção com o esmagamento de soja da NOPA de setembro, inesperadamente fraco e divulgado ontem. No trigo, as exportações americanas seguem com início lento no ano comercial 2026/27. O acumulado está agora em 383 milhões de bushels, 32,6% abaixo do forte ritmo do ano passado e no ritmo mais fraco em três anos. As disrupções no transporte marítimo pelo Mar Negro e possíveis problemas de qualidade no Canadá e na Argentina mantêm aberta a possibilidade de demanda adicional pelo trigo americano nos próximos meses. Ainda assim, o corte de 25 milhões de bushels na meta de exportação feito pelo USDA no WASDE da semana passada reflete a crescente impaciência do mercado para que essa demanda de fato se concretize.
O discurso do presidente do Fed, Kevin Warsh, na reunião do FMI em Bangkok ajudou a acalmar os mercados durante a madrugada. Warsh demonstrou otimismo com a resiliência não só da economia americana, mas também da global, diante dos choques contínuos no setor de energia e em outras frentes. Ele também classificou a inflação como um "desafio comum" e mencionou o aperto monetário sincronizado ao redor do mundo para enfrentar essas pressões. Diante dos dados de inflação acima do esperado nesta semana, tanto ao produtor quanto ao consumidor, as expectativas do mercado haviam se tornado bem mais hawkish, mas arrefeceram de forma notável no fim da semana. Os comentários de Warsh e de outros membros do FOMC reduziram os temores de uma alta de juros em outubro. O FedWatch da CME mostra que a probabilidade desse aumento recuou para cerca de 15%, e o cenário-base segue sendo de mais uma alta de 25 pontos-base até o fim do ano, na reunião de dezembro. As ações de tecnologia também foram abaladas nesta semana por novos receios em relação ao enorme endividamento do setor. Porém, a confirmação por Warsh de que a nova força-tarefa do Fed sobre o impacto da IA na produtividade e no emprego realizará uma "audiência de campo" na região da Baía de São Francisco, daqui a um mês, também ajudou a trazer alguma calma. Embora tenha abordado amplamente o tema da IA, Warsh também destacou que a força do investimento nos EUA para além da IA dá ainda mais resiliência ao crescimento econômico do país. Segundo ele, "isso significa que temos muitos ventos favoráveis dando força e durabilidade a esta economia", e ele ressaltou que esses ventos favoráveis não estão presentes em todo o mundo.
O total de ativos no balanço do Fed (descontadas as eliminações de consolidação) subiu 0,12% na comparação semanal, para US$ 6,756 trilhões, o maior aumento semanal em nove semanas e o nível mais alto nesse período. Para um momento ainda caracterizado como de aperto quantitativo, chama atenção que o balanço do Fed não venha encolhendo de forma significativa nos últimos meses. Ele acumula alta de 3,36% em relação à mínima recente de US$ 6,536 trilhões, registrada em dezembro de 2025, embora ainda esteja 24,7% abaixo do pico da pandemia, de US$ 8,965 trilhões, atingido em abril de 2022. O movimento mais relevante continua sendo a crescente concentração em Treasury bills, que aumentaram mais US$ 3,9 bilhões na semana e atingiram nova máxima histórica de US$ 566,0 bilhões. As posições em T-bills acumulam alta de US$ 370,6 bilhões em relação a um ano atrás, o que responde por quase todo o aumento anual de US$ 374,3 bilhões na carteira de Treasuries do Fed. No mesmo período, as posições em títulos lastreados em hipotecas (MBS) caíram US$ 187,8 bilhões, reforçando a visão de que o Fed vem reformulando de forma gradual a composição de sua carteira, reduzindo MBS em favor de Treasuries. Embora isso esteja longe de indicar uma nova expansão do balanço, a tendência sugere que o aperto quantitativo em 2026 é bem diferente do de dois anos atrás. A carteira do Fed continua migrando para Treasuries de prazo mais curto, mesmo com o nível total de ativos praticamente estabilizado. Esse cenário aponta para liquidez abundante no sistema e para um balanço muito mais próximo de sua composição de equilíbrio do que muitos imaginam.
