
Petróleo recua com expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz e alívio de sanções
Ontem (17/06), o contrato mais ativo do Brent fechou em alta de 0,75%, cotado a USD 79,55/bbl. O WTI encerrou a USD 76,79/bbl (+0,97%). A sessão refletiu leve recuperação após sequência de quedas acentuadas nos dias anteriores.
A declaração de Trump de que o memorando de entendimento com o Irã "não é definitivo" e que campanhas de bombardeio poderiam ser retomadas caso o país não "se comporte" reintroduziu prêmio de risco no mercado — interrompendo brevemente a trajetória de queda dos preços derivada do acordo de cessar-fogo anunciado no domingo (14). A combinação de incerteza diplomática e a décima queda consecutiva dos estoques norte-americanos, que atingiram o menor nível desde 1985, sustentou o viés altista na sessão.
Nesta manhã (18/06), por volta das 08h00, o Brent recuava 2,00%, a USD 77,96/bbl, e o WTI caía 2,38%, a USD 74,96/bbl — mínimas desde o início do conflito. O mercado precifica aceleração da entrega de barris com a reabertura prevista do Estreito de Ormuz e o alívio de sanções sobre o petróleo iraniano.
Acordo EUA-Irã e reabertura do Estreito de Ormuz
EUA e Irã assinaram digitalmente um memorando de 14 pontos que encerra formalmente o conflito, suspende o bloqueio naval e prevê restauração total do tráfego pelo Estreito de Ormuz em até 30 dias. O acordo inaugura um período de 60 dias de negociações em Genebra e inclui isenções imediatas para exportações de petróleo e petroquímicos iranianos, além de um plano de USD 300 bilhões para reconstrução do Irã.
Por que isso importa: A reabertura do Estreito de Ormuz libera estimados 93 milhões de barris de petróleo não iraniano retidos no Golfo Pérsico, além de aproximadamente 72 milhões de barris de petróleo iraniano parados em tanqueiros — volume que pressiona diretamente os preços de curto prazo. No médio prazo, a remoção das sanções recoloca o petróleo iraniano em escala global, aprofundando o superávit que a IEA já projeta para 2027.
Panorama: Dentre os 14 pontos do memorando de entendimento, estão:
- Cessar-fogo total: Irã e EUA concordam em encerrar imediatamente e permanentemente o conflito em todas as frentes e se comprometem a não realizar ações hostis nem ameaças mútuas.
- Respeito à soberania: Ambas as partes se comprometem a respeitar a soberania, integridade territorial e a não interferir em assuntos internos.
- Prazo para acordo final: Negociação de um acordo definitivo em até 60 dias, com possibilidade de extensão por consenso.
- Medidas dos EUA (inicial): Levantamento do bloqueio naval, normalização do tráfego marítimo em até 30 dias e retirada de forças após o acordo final.
- Medidas do Irã (inicial): Restabelecimento do fluxo de navegação no Golfo Pérsico em até 30 dias, incluindo remoção de minas e obstáculos técnicos.
- Plano econômico: Criação de um plano de reconstrução e desenvolvimento do Irã, com financiamento mínimo de US$ 300 bilhões.
- Fim das sanções: Compromisso dos EUA de encerrar progressivamente todas as sanções contra o Irã (ONU, AIEA e sanções unilaterais).
- Questão nuclear: Irã reafirma que não desenvolverá armas nucleares; temas nucleares serão detalhados no acordo final.
- Manutenção do status quo: Até o acordo final, o Irã não avança em seu programa nuclear e os EUA não ampliam sanções nem presença militar.
- Exportação de petróleo: Liberação imediata (via waivers) das exportações de petróleo e petroquímicos iranianos, incluindo serviços financeiros e logísticos.
- Liberação de ativos: Descongelamento progressivo de recursos financeiros iranianos no exterior, com acesso pleno pelo Banco Central do Irã.
- Mecanismo de monitoramento: Criação de um sistema para supervisionar a implementação e cumprimento do acordo.
- Condição para negociação final: Avanço para o acordo definitivo condicionado à implementação inicial de medidas-chave (principalmente comércio e finanças).
- Validação internacional: O acordo final será formalizado por meio de resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU.
O que esperar? O cenário atual é de queda gradual dos preços à medida que os fluxos pelo Estreito de Ormuz se normalizam, sem colapso abrupto dado que países precisarão recompor reservas estratégicas. Caso as negociações dos 60 dias travem em pontos como o programa nuclear iraniano ou a situação no Líbano, parte do prêmio de risco pode ser reintroduzida. Se Pequim retomar compras spot em escala — condicionadas à flexibilização das cotas de exportação de derivados —, a demanda asiática pode absorber parte do excesso de oferta e limitar a queda.
Estoques dos EUA no menor nível desde 1985 e perspectiva de excesso de oferta
Os estoques totais de petróleo dos EUA caíram pela décima semana consecutiva, atingindo o menor nível desde 1985, conforme dados da EIA divulgados ontem. A demanda aquecida e a disrupção das rotas do Oriente Médio aceleraram o consumo de reservas estratégicas e comerciais em escala sem precedente nos dias atuais.
Por que isso importa: Estoques deprimidos sustentam os preços no curto prazo, mas o quadro se inverte rapidamente com a retomada dos fluxos pelo Estreito de Ormuz — com a IEA projetando um excesso relevante de oferta para 2027. Nesse sentido, o mercado deve continuar observando cotações mais sustentadas frente ao período pré-guerra no curto prazo, ao passo que, entre o final de 2026 e início de 2027, a condição mais saudável das reservas deve influenciar em pressões baixistas mais relevantes.
O que esperar? Enquanto os estoques globais permanecerem deprimidos, a queda dos preços tende a ser contida — com governos e empresas usando o petróleo liberado para recomposição de reservas, e não apenas para consumo imediato. O risco central é a velocidade da normalização iraniana: retorno mais rápido que o esperado aprofunda o contango e acelera a reprecificação baixista.

Fonte: ICE, NYMEX. Elaboração: StoneX.