CoffeeNetwork divulga sua estimativa para a safra global 2022/23, revisando projeção de oferta para superávit
Alexis Rubinstein
Managing Editor
Justo quando pensávamos que a dinâmica mundial não ficaria mais complicada...
Neste relatório, serão apresentados dados de várias fontes e nossa própria análise a fim de fornecer estimativas para a produção e demanda para o ano-safra de outubro de 2022 a setembro de 2023, que consideramos ser as mais adequadas para o clima atual.
Nos últimos meses, foi possível observar a aplicação contínua de vacinas contra a Covid-19 e um período de maior calma no que diz respeito à pandemia. Contudo, essa calmaria não durou muito. Em fevereiro, o mundo se deparou com o início da guerra entre a Rússia e a Ucrânia e o ressurgimento da Covid-19 a adoção de lockdowns nas principais cidades da China um mês depois. Outras grandes economias enfrentaram dificuldades para se adaptar às consequências desses grandes eventos mundiais enquanto precisavam enfrentar seus próprios desafios. Do ponto de vista macro, é possível apenas supor o que acontecerá nos próximos meses.
Fundamentalmente, o setor cafeeiro global se encontra em território desconhecido. As mudanças nos hábitos de consumo, obstáculos logísticos e o clima imprevisível têm afetado todos os elos da cadeia de suprimentos. Isto, combinado com a falta de dados precisos e de transparência, mantém o balanço de café como um dos enigmas mais difíceis de solucionar. Mas, com certeza, faremos o nosso melhor.
Produção
Com relação ao Brasil, em novembro de 2021, o time da StoneX visitou as regiões produtoras de café robusta, passando pelas lavouras de Rondônia, do sul da Bahia e do Espírito Santo. Na segunda parte do giro de safra, que aconteceu em janeiro de 2022, as áreas de café arábica no Cerrado mineiro, sul de Minas Gerais, Mogiana e Matas de Minas foram visitadas. Com base nos resultados obtidos, a safra 2022/23 de café do Brasil foi estimada em cerca de 58,9 milhões de sacas. O levantamento notou que a produção havia sido impactada pelo clima seco e geadas que ocorreram durante o desenvolvimento da safra. Este volume foi usado em nosso cálculo para a produção global.
Para o segundo maior produtor mundial, o Vietnã, esperamos que a produção registre leve queda em relação ao ano passado, para 30 milhões de sacas, ante 30,75 milhões de sacas. Embora as chuvas tenham chegado cedo, chegaram a tempo de beneficiar o desenvolvimento adequado da safra 2022/23 de café do país. Além disso, os produtores das principais áreas produtoras têm confirmado bons rendimentos.
Na Colômbia, as chuvas em decorrência do La Niña continuam impactando a safra de café. O país registrou chuvas muito acima da média durante fases importantes do desenvolvimento, o que impediu uma florada adequada. Desse modo, a produção deve ter queda de cerca de 800.000 sacas, para 13 milhões de sacas, embora outros especialistas do setor digam que a produção pode ser ainda menor se o clima permanecer adverso durante a temporada.
Também são estimadas quedas de produção em outros países da América Central, como Guatemala e Honduras, devido à combinação de fatores climáticos e ao aumento dos custos de produção. O aumento dos preços do petróleo e os custos crescentes com fertilizantes aumentaram os custos gerais de produção entre 30% e 50% em toda a região. Isso teve um impacto considerável no tamanho geral da safra em países que já enfrentavam dificuldades relacionadas às questões trabalhistas.
Como a safra de 2022/23 ainda está a meses de terminar, será importante observar como o La Niña se desenrolará. A última previsão da NOAA indicou incerteza sobre se La Niña fará uma transição para um El Niño-Oscilação do Sul (ENSO) neutro durante o verão do Hemisfério Norte, com os meteorologistas prevendo 52% de chances de La Niña e 46% de um ENSO neutro de julho a setembro de 2022. Após esta temporada, e no início do próximo ano-safra, a previsão é de um arrefecimento das temperaturas, com o La Niña favorecido durante o outono e início do inverno. Caso o La Niña ressurja durante esse período (de colheita para muitos dos principais produtores), ele não afetará a quantidade da safra 2022/23, mas pode afetar a pontualidade da disponibilidade.
Fonte: IRI/CPC. Elaboração: StoneX.
Levando em consideração nossas previsões para cada país, a CoffeeNetwork estima a produção global de café na safra 2022/23 entre 170 milhões e 172 milhões de sacas. Isso representa um aumento de 3,7% a 5,5% em relação à safra anterior, quando a CoffeeNetwork estimou a produção entre 163 milhões e 164 milhões de sacas.
Demanda
Continuamos enfatizando aos nossos leitores que o mercado cafeeiro é negligente no fornecimento de dados sólidos e transparentes. Os números para a produção podem ser “estimados”, mas ainda estão abertos a interpretações, conforme observado através das estimativas privadas. As projeções para estoque, embora confiáveis para algumas regiões, são quase inexistentes para outras. E com dados de produção confusos e números de estoque incompletos, seria praticamente impossível calcular a demanda global.
O único fator que não consideraremos ao calcular a demanda global de café são os estoques certificados. Acreditamos que há uma disseminação da desinformação de que os estoques certificados são um indicativo da demanda. No entanto, gostaríamos que ficasse entendido que os estoques certificados são mais um resultado do aspecto financeiro da indústria do que qualquer outra coisa. Quando os diferenciais são fracos em comparação com o preço na bolsa de Nova York, ou seja, se houver uma desvalorização do café em uma determinada região, faz sentido para o exportador comprar café e direcioná-lo à bolsa para certificação. No entanto, quando os diferenciais são mais fortes, o produtor ganha mais dinheiro vendendo o café FOB em vez de direcioná-lo à bolsa. Atualmente, os diferenciais são altos em muitas origens, desincentivando os produtores a certificarem seus cafés. Além disso, o café certificado é o mais acessível para compra. Com os estoques certificados, eles já estão no destino, não precisam lidar com problemas de frete e acúmulo de descontos por causa do envelhecimento.
A fim de tentar realizar uma estimativa para a safra de outubro de 2022 a setembro de 2023, é preciso considerar o cenário global atual e a expectativa de que as coisas permanecerão praticamente as mesmas para o período em questão ou que o impacto na demanda permanecerá, pelo menos, o mesmo. Com a disponibilidade de vacinas e a flexibilização das restrições de viagem, juntamente com o retorno em massa aos escritórios e locais de trabalho, esperamos que a demanda global por café retorne aos níveis vistos antes da pandemia em todo o mundo.
Esse salto na demanda, no entanto, será compensado pelas perdas decorrentes da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. De acordo com os dados comerciais disponíveis, o consumo da Ucrânia no ano passado foi de 1,235 milhão de sacas. Desse modo, podemos contar com a perda de 100% do consumo na região. Na Rússia, onde o consumo é de aproximadamente 4 milhões de sacas por ano, acreditamos que seja sensato estimar uma queda de 50%. Isto indicaria que, como resultado da guerra entre os países, a demanda será reduzida em 3,2 milhões de sacas.
Demanda de café nos Estados Unidos
Para calcular o consumo nos EUA, a CoffeeNetwork utiliza uma fórmula que explora a relação entre as importações e os estoques de café verde nos armazéns dos EUA para encontrar o “desaparecimento” do grão. Com base nisso, podemos afirmar que o consumo de café americano foi definitivamente impactado durante a Covid-19, caindo 3,6% em 2020 e 1,3% em 2021. No entanto, com base na tendência recente dos dados, estimamos que a demanda se recupere fortemente dessas perdas em 2022, saltando 6,9% e permanecendo forte, embora com estabilização em 2023.
Com base em nossa previsão de demanda de 24,5 milhões de sacas em 2022, vemos um aumento de 4,1% no consumo, de 1 milhão de sacas em 2023.
Demanda nos portos | Balanço entre as importações e os estoques nos portos americanos (milhões de sacas)
Fontes: StoneX, USDA, GCA. Elaboração: StoneX.
Importações de café em países europeus
Para a União Europeia, infelizmente, não temos o mesmo nível de precisão nos dados de estoque quanto nos EUA, por isso não podemos replicar a mesma fórmula para calcular a demanda. Em vez disso, dependemos muito de dados e tendências de importação.
Nos anos anteriores à pandemia, as importações de café da União Europeia aumentaram constantemente. Em 2020 e 2021, no entanto, enquanto a região lutava com bloqueios, proibições de viagens, trabalho em casa, etc., as importações caíram perto de 2 milhões de sacas.
Com a reabertura das economias, o retorno ao trabalho e a retomada das viagens, esperamos que a demanda na região se recupere das perdas e comece a aumentar de forma constante ano a ano, conforme antes da pandemia.
Em 2021/22, a UE consumiu 41,4 milhões de sacas de café, já 1% superior a 2020/21. Nossa previsão é que o consumo anual de café na região aumente 4,1% em 2022/23, adicionando mais 1,7 milhão de sacas.
Sazonalidade das importações de café nos União Europeia (milhões de sacas)
Fonte: Eurostat. Elaboração: StoneX.
Demanda no Brasil
Dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) mostram que o Brasil consumiu 21,5 milhões de sacas entre novembro de 2020 e outubro de 2021, um aumento de 1,71% em relação ao período anterior, considerando dados de novembro de 2019 a outubro de 2020.
No ano passado, comentamos que acreditávamos em um consumo brasileiro mais próximo de 18 milhões de sacas por ano, contra os 22 milhões de sacas aceitos pela indústria. No entanto, revisamos nossa projeção do consumo interno do Brasil para 19 milhões de sacas no ano-safra de 2021/22, e estimamos que esse número tenha permanecido inalterado em 2022/23, principalmente devido à disparada da inflação para o café (veja abaixo).
Preços do café ao consumidor
O café é resistente, mas não indestrutível. Quando os preços disparam, é inevitável que haja certo impacto no consumo, seja na procura do consumidor por marcas mais acessíveis ou redução de três xícaras por dia para duas.
À medida que a inflação aumenta, isso é algo que entrará em foco como um fator importante para a demanda global no ano cafeeiro de 2022/23.
Vimos os preços ao consumidor subirem globalmente à medida que o efeito “gotejamento” começa a ocorrer. Os futuros de arábica atingiram uma máxima de mais de dez anos, a um nível de USD 258.35/lb em fevereiro de 2022.
Preços futuros de café arábica e robusta
Fontes: ICE, ICE Europe. Elaboração: StoneX.
Nos EUA, dados da Secretaria de Estatísticas Trabalhistas (BLS, na sigla em inglês) mostraram que, em abril, o custo médio do café torrado e moído nas principais cidades americanas foi de USD 5,53/lb, um aumento de 16,4% em relação ao custo médio de USD 4,75 em abril do ano passado. Este também é o preço mais alto para uma libra de café desde junho de 2013, de acordo com o conjunto de dados. A inflação do café aumentou 25% no ano passado.
Os preços do café nas prateleiras dos supermercados vêm subindo de forma constante desde o início do ano-calendário de 2022 e devem seguir essa mesma trajetória para todo o ano-safra de 2022/23. No entanto, historicamente, o aumento dos preços nos EUA não impediu a demanda, e os consumidores americanos de café devem continuar a fazer a demanda crescer.
No Brasil, a inflação do café aumentou impressionantes 67% no ano passado.
Os preços do café e a inflação na Europa não aumentaram tanto quanto observado nos EUA e no Brasil. Isso é uma indicação da recuperação mais lenta da demanda e do mercado competitivo, permitindo que os varejistas mantenham os preços mais baixos.
Evolução da inflação sobre o café torrado e moído no Brasil, EUA e Europa nos últimos 12 meses
Fontes: IBGE, BLS, Eurostat, Elaboração: StoneX.
Concluindo
Estimativa de demanda de 2022/23:
- Aumento de 1 milhão de sacas dos EUA + aumento de 1,7 milhão de sacas da UE = aumento de 2,7 milhões de sacas ano a ano
- Revisão de 1 milhão de sacas do Brasil = aumento de 3,7 milhões de sacas ano a ano
- Perda de 3,2 milhões de sacas de Ucrânia/Rússia = aumento de 500 mil sacas ano a ano
Um aumento de 500 mil sacas em relação à previsão do ano passado, de 163,5 para 164,5 milhões de sacas, indicaria um aumento de 0,5% a 1% ano a ano, elevando nossa previsão de demanda de 2022/23 para 164 a 165 milhões de sacas.
Com base em nossa previsão de produção de 170 a 172 milhões de sacas, isso resultaria em um superávit para o ano cafeeiro de 2022/23 entre 5 e 8 milhões de sacas.