Nos dias 24 e 25 de fevereiro, o USDA realizou seu Fórum Agrícola anual e foram divulgadas as estimativas de oferta e demanda para a safra 2022/23 dos EUA. Apesar de os números serem resultado somente de modelos estatísticos, ainda não havendo pesquisa de campo para o ciclo de primavera, o evento é sempre muito aguardado pelo mercado.
Soja
Para a soja, o USDA aumentou a área plantada dos EUA no comparativo anual, para 35,6 milhões de hectares (passou de 87,2 para 88 milhões de acres), o que foi um ajuste pequeno em relação ao esperado, de apenas 320 mil hectares, diante das perdas consideráveis na América do Sul e das perspectivas de aperto no balanço mundial da oleaginosa.
De qualquer forma, com essa área maior e uma produtividade na tendência (3,46 toneladas por hectare), a produção do país seria recorde, em 122,2 milhões de toneladas.
Pelo lado da demanda, também é esperado um crescimento, com o esmagamento alcançando 61,2 milhões de toneladas, e as exportações subindo para 58,5 milhões, aumento de 2,7 milhões de toneladas no comparativo com o ciclo 2021/22.
Essas projeções indicam que a demanda tende a crescer mais que a oferta, com os estoques finais 2022/23 ficando em 8,3 milhões de toneladas, abaixo do estimado atualmente para a safra 2021/22. Além disso, o USDA espera um preço médio ao produtor em USD 12,75 por bushel na safra nova, levemente abaixo do estimado para o ciclo atual.
Assim, essa perspectiva inicial já indica a manutenção de um balanço restrito para os EUA, lembrando que muitas modificações nesses números ainda devem acontecer, tanto na oferta como na demanda.
Especificamente em relação à demanda, diante das quebras da safra na América do Sul, principalmente no Brasil, o USDA parece estar subestimando os impactos. Além de ainda estimarem uma safra brasileira 2021/22 consideravelmente maior que os números privados e que a Conab, o Departamento espera que as exportações do Brasil superarão 90 milhões de toneladas. Apesar das diferenças de ano safra, a StoneX, por exemplo trabalha aposta em 80 milhões de toneladas. Diante desse cenário, o balanço norte-americano poderia ficar mais apertado já no ciclo atual, situação com reflexos na safra nova, que ainda não estão refletidos nos números divulgados.
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Milho
Em relação ao milho, a estimativa de área plantada para a safra 2022/23 ficou em 92 milhões de acres (37,2 milhões de hectares), número 1,5% menor que o registrado na safra 2021/22, quando o país plantou 93,2 milhões de acres (37,8 milhões de hectares). Segundo o Departamento, as mudanças nos preços relativos e os custos de insumos mais altos amparam a queda esperada para a área plantada do cereal.
Apesar da expectativa de uma menor área destinada ao cereal, o Fórum aponta para um crescimento da produção em 2022/23, para 387,1 milhões de toneladas, volume 0,8% acima do obtido na temporada 2021/22 e um recorde para o país.
Pelo lado da demanda, o USDA espera um crescimento do consumo doméstico em 2022/23, para 317,3 milhões de toneladas, um aumento de 0,6% no comparativo anual. Essa expansão é puxada, principalmente, pela expectativa de um maior uso do cereal para a produção de etanol, que está estimado em 137,2 milhões de toneladas, 1,4% a mais que o estimado para a safra atual.
Por outro lado, o Fórum sinaliza uma redução nos embarques norte-americanos de milho na próxima temporada, de 3,1% no comparativo anual, para 59,7 milhões de toneladas, em meio à expectativa de um aumento da competição internacional entre os exportadores, apesar de um crescimento do comércio global e da forte demanda chinesa.
Desse modo, o USDA espera que consumo total do milho norte-americano permaneça praticamente estável em relação à temporada atual, em 377 mihões de toneladas.
Com isso, em meio a um aumento da produção e uma estagnação do consumo total, os estoques finais devem crescer consideravelmente, alcançando 49,9 milhões de toneladas, 10,8 milhões de toneladas, ou 27,6%, acima do esperado para a ciclo atual. A relação estoque/uso chegaria a 13,2%, contra 10,4% na temporada 2021/22, cenário relativamente mais confortável para o balanço de oferta e demanda dos EUA.
Em meio a esse cenário, o USDA estima preços médios ao produtor em US$ 5,00 por bushel, 8,3% abaixo do valor estimado para a safra 2021/22, de US$ 5,45 por bushel.
Por fim, é importante frisar que essas projeções são feitas com base em cálculos e premissas adotadas pelo Departamento, como por exemplo condições climáticas dentro da normalidade, e não levam em consideração a pesquisa de intenção de plantio com os produtores. Desse modo, estão sujeitas a significativas alterações – o que, ainda assim, não anula sua importância para o mercado.
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Trigo
No caso do trigo, o histórico de fortes preços deve levar ao aumento da área plantada, cuja expectativa para 2022 é de 19,4 milhões de hectares, um crescimento de quase 500 mil hectares em relação ao ano passado (2,78%). Vale destacar que, se confirmada, essa será a maior área plantada de trigo desde o ano safra 2016/17.
Sob a ótica da oferta, a projeção para 2022/23 para o trigo nos EUA é de uma produção 18% maior em comparação à de 2021/22, correspondendo a 52,8 milhões de toneladas. Além disso, a perspectiva é de que o rendimento médio nacional chegue a 3,30 ton/ha, o que representaria um crescimento ano a ano na ordem de 11%, uma vez que a safra 2021/22 foi muito impactada pelas intempéries climáticas. Portanto, a nova safra compensaria os estoques iniciais baixos, contribuindo para aumentar a oferta em 5% no comparativo anual, para 73,7 milhões de toneladas.
Apesar do nível de exportação ainda abaixo da média dos últimos 5 anos, espera-se que haja crescimento da demanda externa e, com isso, a compensação da queda da demanda no mercado interno. As projeções para o consumo doméstico nos EUA seguem modestamente baixas, uma vez que o milho deverá ter preços mais competitivos durante o verão.
Deste modo, com a projeção de crescimento da produção maior que o uso total, a expectativa é de estoques finais 2022/23 com aumento de 13% em relação ao ano anterior. Este cenário contribui para a projeção do USDA de um preço médio de US$ 6,80 por bushel, uma queda de US$ 0,50 em relação a 2021/22.
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Para o algodão, os primeiros números trazidos pelo USDA no Fórum Agrícola vieram dentro das expectativas. A projeção para área plantada nos Estados Unidos neste ciclo 22/23 teve incremento significativo de 13,2% em relação à safra anterior, devendo chegar a 5,14 milhões de hectares. Esse tamanho pode ser considerado também otimista, ao passo que as escaladas nos preços no complexo de grãos podem pegar parte das áreas na região do Delta do Rio Mississipi, onde há competição entre culturas.
De fato, a área plantada é, neste momento, a grande variável aguardada pelos agentes, justamente pelo incentivo ao cotonicultor nos últimos meses, com preços registrando máximas de 11 anos. Contudo, a produção depende de outras questões, como a produtividade e a taxa de abandono, as quais respondem diretamente ao clima.
No cinturão do algodão, a situação de seca forte é semelhante (ou até pior em alguns pontos) ao ano passado – que, é interessante lembrar, melhorou de forma rápida e não impactou de maneira significativa a safra 21/22 até sua colheita. O USDA, com os dados do Fórum, estimou uma produtividade de 959 kg/hectare (muito próxima do efetivo no ciclo atual) e um abandono de 20%, mais um cálculo estatístico baseado em médias móveis.
Para uma perspectiva mais global, foram projetados aumentos tanto da produção (incentivada pelo patamar atual de preços) quanto do consumo, puxado também pela recuperação das economias. De fato, a publicação é altista para a próxima safra, uma vez que a relação estoque/uso deve ter corte de 3,2 pontos percentuais de um ciclo para o outro. Para um primeiro relatório, que não considera algumas variáveis de impacto e se baseia mais em modelos matemáticos, os dados condizem com as primeiras impressões dos agentes em relação ao futuro do mercado de algodão.
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX