Como sempre, os números de perspectivas de plantio para a safra nova dos EUA eram muito aguardados, uma vez que são as primeiras estimativas baseadas em informações qualitativas, coletadas junto aos produtores.
O que não foi novidade foi que os números surpreenderam o mercado, como já ocorreu em várias outras oportunidades. Os resultados vieram na direção esperada para a soja e o milho, mas o aumento/queda de área em relação ao ano anterior foi bem mais pronunciado do que as expectativas indicavam.
Soja
A área plantada esperada para a soja 2022/23 nos EUA ficou em 36,8 milhões de hectares, quando as expectativas médias do mercado eram de 35,9 milhões. Como no ciclo 2021/22, a área norte-americana ficou em 35,3 milhões de hectares, as apostas são de um aumento de 1,5 milhão de hectares no comparativo anual, o que seria um resultado acima da área estimada para o milho, como pode ser visto na seção a seguir, sobre o cereal.
No caso de essa área se confirmar e considerando-se a estimativa de produtividade divulgada no Fórum Agrícola, no final de fevereiro, a produção de soja nos EUA poderia alcançar 126,2 milhões de toneladas, o que seria um recorde histórico e um resultado 4 milhões de toneladas acima do estimado no Fórum.
Contudo, é importante destacar alguns pontos que podem mudar essa perspectiva de área. Além do andamento normal do ciclo, com questões climáticas podendo resultar em migrações de última hora entre as culturas, esse ano há outros pontos a se considerar.
A possibilidade de aumento da área de soja nos EUA vem sendo alimentada pelas quebras importantes de safra na América do Sul, além dos custos muito elevados dos fertilizantes que têm um peso maior sobre o milho. Entretanto, é preciso levar em conta o período de realização desse levantamento do USDA junto aos produtores norte-americanos, que não deve ter pegado boa parte do período de invasão da Ucrânia pela Rússia. Desde o final de fevereiro, quando o conflito começou, os preços do milho em Chicago avançaram proporcionalmente mais que os da soja, o que favoreceria o cereal em relação à oleaginosa ao se comparar as cotações em Chicago dos vencimentos para o final de 2022, quando a safra nova norte-americana entrará no mercado.
Dessa forma, por mais que esse dado tenha surpreendido, ajustes ainda podem acontecer até a atualização de área plantada que será divulgada no final de junho.
Área plantada de soja - EUA (milhões de hectares)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Intenções de Plantio.
Milho
No caso do milho, os números trazidos no relatório de Intenções de Plantio tiveram um efeito altista nos futuros do cereal em Chicago. O Departamento indicou que os EUA plantarão 36,2 milhões de hectares de milho, 1,6 milhão, ou 4,2%, a menos que o registrado na safra 2021/22 e 1 milhão, ou 2,7%, a menos que o esperado pelo mercado. Em relação aos estados, destacam-se os recuos no comparativo anual de 242,8 mil hectares (7,1%) em Minessota e de 202,3 mil hectares (12,2%) na Dakota do Norte.
Caso a área estimada seja concretizada e considerando a porcentagem da área que não será colhida – que contempla tanto a área abandonada quanto a área destinada à silagem - calculada pelo Fórum Agrícola (8,3%) e um rendimento de 11,4 t/ha (em linha com a tendência histórica e considerando um clima dentro do normal), o país produziria 378,5 milhões de toneladas, 5,4 milhões a menos que na temporada 2021/22 e 8,6 milhões abaixo do estimado pelo Fórum Agrícola para a temporada 2022/23, o que tende a promover mais um ano de preços fortalecidos, dada a expectativa de forte demanda internacional e menor oferta nos EUA.
Contudo, como já comentado, é necessário ponderar que grande parte da pesquisa foi realizada antes do conflito entre Rússia e Ucrânia, não contabilizando totalmente o rali que as tensões no Mar Negro provocaram nos preços do milho em razão da preocupação com um expressivo recuo na disponibilidade internacional do cereal. Portanto, é possível que a área plantada seja maior que a estimada nas Intenções de Plantio.
Área plantada de milho - EUA (milhões de hectares)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Intenções de Plantio.
Trigo
No caso do trigo, as perspectivas de plantio para os EUA trouxeram um aumento de 1% na área total do cereal frente a 2020/21, estimada em cerca de 19,2 milhões de hectares – se comparada aos dados da safra anterior. Mesmo assim, se concretizada, será a quinta menor área plantada desde 1919, quando se iniciou o histórico de dados.
Vale apontar que a perspectiva de um avanço área plantada se deu em boa medida em relação ao trigo de inverno, que, se confirmada, deve crescer até 2% em relação a um ano antes, com 14 milhões de hectares. Entretanto, a expectativa para o trigo de primavera para 2022 sofreu uma queda de 2% em relação a 2021, sendo estimada em 4,5 milhões de hectares. Por fim, para o trigo durum, se espera uma área plantada de 800 mil hectares, um aumento de 17% em relação ao ano anterior.
Nos principais estados produtores dos EUA, Kansas e Texas, a perspectiva é de que a área de plantio cresça 1,4% para o primeiro e se mantenha constante para o segundo, totalizando 3 milhões de hectares e 2,2 milhões de hectares, respectivamente.
Esse saldo de maior área de trigo para os EUA tende a se refletir numa produção também mais elevada. Vale destacar que deste total, cerca de 9,6 milhões de hectares são Hard Red Winter, 2,8 milhões de hectares são Soft Red Winter, 1,5 milhão de hectares são White Winter e cerca de 4,25 milhões de hectares são trigo Hard Red Spring.
Área plantada de trigo - EUA (milhões de hectares)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Intenções de Plantio.
No relatório divulgado pelo USDA, as Intenções de Plantio para a safra 22/23 apontaram para uma área de 4,98 milhões de hectares a serem plantados nos Estados Unidos neste ano, 9% acima da área no ciclo 21/22. O dado não trouxe muitas surpresas para o mercado, que aguardava esse aumento.
No principal estado produtor, o Texas, a área deve aumentar 7,1%, para 2,76 milhões de hectares.
A região do Delta do Rio Mississipi é onde o USDA projeta maior aumento relativo na área plantada, de 18,4%. Contudo, as expectativas do mercado já foram mais otimistas há alguns meses.
O algodão teve um protagonismo no ano de 2021, quando os preços tiveram alta anual de 44%, relativamente mais intensa se comparada às valorizações no complexo de grãos – que competem por áreas na região do Delta. Na virada do ano, refletindo quebras de safra na América Latina e a guerra entre Rússia e Ucrânia, a pluma foi perdendo parte da competitividade para os grãos, embora ainda esteja extremamente favorável para os cotonicultores no mundo – justamente, a área nos EUA vai aumentar significativamente.
O plantio do algodão já foi estimado por algumas instituições do mercado na região de 5,2 milhões de hectares, por exemplo, mas as perspectivas atuais nos primeiros dados do USDA continuam positivas. Vale notar, todavia, que a produção não necessariamente vai ser 9% maior, já que a produtividade é o “segundo passo” para a oferta norte-americana. Neste momento, a seca no cinturão do algodão, especialmente no Texas, vai ameaçando o rendimento nos campos estadunidenses. Os custos de produção, por sua vez, são barreiras para a produção no país, seja por desincentivar semeaduras ainda maiores, seja por indicar menor aplicação de fertilizantes – algo que também impacta diretamente na produtividade nesta safra 22/23.
Portanto, o relatório de Intenções de Plantio foi mais neutro para a pluma. Aponta para um aumento de área plantada esperado pelos agentes e menor se comparado às expectativas de alguns meses atrás. Mas também não explica necessariamente um aumento produtivo na mesma proporção nos Estados Unidos, dando fundamentos suficientes para o mercado se manter em cautela em suas decisões para o ciclo 22/23. Vale apontar, o contrato de dezembro/22 (acomodado na região levemente acima de US¢ 110/libra-peso), por mais que estejam em trajetória de alta, não tiveram a escalada tão acelerada quanto aconteceu nos futuros de maio/22 e julho/22, que ainda estão em cenário propício para ataques especulativos.
Área plantada de algodão - EUA (milhões de hectares)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Intenções de Plantio.
Anexo: Custos de Produção - Fertilizantes
Um dos principais motivadores de uma substituição de área plantada de milho por soja nesta próxima safra americana, é o menor custo de produção da oleaginosa, em relação ao cereal, especialmente com adubação. De acordo com dados históricos do USDA, enquanto os fertilizantes respondem pouco mais de 6% dos custos de produção da soja, para o milho, essa representatividade cresce para 17% na média nacional. Este cenário se torna particularmente mais delicado quando observamos a variação dos preços dos fertilizantes em relação ao mesmo período pré-plantio há um ano: o preço da ureia nos EUA saltou 133% entre o final de março de 2021 e 2022, o DAP está 83% mais caro e o potássio 270%.
Além dos preços mais altos, a disponibilidade de fertilizantes também tem sido um desafio durante o período de aquisição de fertilizantes nos EUA. A guerra na Ucrânia apenas acirrou uma dificuldade de compra de NPK. que já vinha sendo discutida nos últimos meses. Apesar do aperto no cenário recente, as fortes importações registradas nos últimos meses dificilmente permitirão a falta de produto internamente ao longo do período de aplicações, no entanto, relatos de cortes do volume aplicado nas lavouras são concretos e deverão ocorrer, em certa medida, para ambas as culturas. Mesmo assim, ainda é cedo para estimar a intensidade de uma eventual redução de aplicações, e seus reflexos sobre a produtividade ao final da safra. Será necessário acompanhar de perto o andamento da lavoura americana ao longo dos próximos meses, bem como o desenvolvimento do clima, que deverá ter um papel ainda mais importante neste ano, para o bom andamento da safra 22/23 americana.
Participação média dos fertilizantes no custo total de cada cultura nos EUA
Fonte USDA. Elaboração: StoneX.