Entre os anos de 2018 e 2019, os surtos de Peste Suína Africana na China impactaram profundamente a suinocultura no país. O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais da China (MARA, na sigla em inglês) estima que entre a detecção do primeiro caso no país, em 1º de agosto de 2018, e o final de 2019, quando a atividade começou a se recuperar, o rebanho de suínos recuou cerca de 40%. Como era esperado, a capacidade de produção dos frigoríficos do país também foi severamente afetada. Tomando como base os dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na siga em inglês), a produção de carne suína na China foi de 54,52 milhões de toneladas¹ (mi t) em 2017, para apenas 36,34 mi t em 2020, uma queda de 33,3%.
Essa diminuição na oferta doméstica provocou dois importantes movimentos. Em primeiro lugar, os preços dos porcos vendidos no mercado interno chinês dispararam. Se entre 2016 e 2018 o quilo do animal vivo foi usualmente negociado entre RMB 10,00 e RMB 20,00, no ultimo trimestre de 2019 ele havia ultrapassado a casa dos RMB 30,00 e se manteve acima desse patamar até o início de 2021.
A outra grande consequência foi o significativo aumento das importações chinesas de carne de porco, que fizeram o país se isolar como o principal comprador do produto no mercado internacional. De novo utilizando como referência os dados do USDA, as importações da proteína pela China entre 2017 e 2020 cresceram 3,52 vezes, saltando de 1,50 mi t para 5,28 mi t. Além de aumentar a importação de proteína proteína suína, o país passou também a consumir e importar mais carne bovina e de aves.
A partir de 2020, com o surto relativamente controlado, o Partido Comunista Chinês passou a impulsionar a recuperação dos rebanhos, auxiliando fazendeiros e empresários. Esses programas estatais, aliados ao dinamismo da economia chinesa, permitiram uma rápida retomada. Já em junho de 2021, segundo estimativas do MARA, o rebanho do país estava em 439,11 milhões de cabeças, número similar ao registrado antes da Peste.
Entretanto, o ano de 2021 marcou também uma mudança nos fundamentos do mercado. Com a oferta de porcos crescendo exponencialmente, os preços começaram a declinar, voltando para valores condizentes com a realidade existente antes de 2018. Entre o início de janeiro deste ano e o final de outubro, o preço do suíno recuou cerca de 54,8% no país. Tomando como base o preço contínuo do suíno na bolsa de Dalian, ocorreu uma desvalorização de 48,16% entre o dia 8 de janeiro e o 28 de outubro - de RMB 28,29/kg para RMB 14,67/kg. Curioso destacar que o mercado futuro de porco foi implementado na China justamente no dia 8 de janeiro, atendendo a uma necessidade de proteção dos agentes do mercado físico contra a volatilidade dos preços.
Com a queda nas cotações, a recuperação dos rebanhos começou a declinar. De fato, divulgação do MARA mostrou que entre junho e setembro de 2021 o número de porcos na China declinou de 439,11 milhões para 437,64 milhões. A produção de carne no terceiro trimestre também encolheu, recuando de 13,46 mi t no segundo trimestre para 12,02 mi t. Isso porque os produtores estão ficando com as margens muito apertadas, dada a deflação nos preços dos porcos e os elevados preços da soja e do milho. Com isso, as fazendas estão atrasando a recomposição dos rebanhos, com as menores chegando a descartar matrizes. Pela estimativa do USDA, em 2022 o rebanho e a produção de carne suína da China voltarão a declinar.
Todas essas movimentações no setor de proteína suína chinês impactam também o mercado de grãos. Segundo dados do USDA, na safra 2020/21, o gigante asiático utilizou cerca de 73,4 mi t de farelo de soja e 203 mi t de milho para a alimentação animal, recordes históricos para o país, sendo que esse volume do cereal correspondeu a mais de 70% do consumo doméstico chinês na safra em questão.
Vale lembrar que esses volumes recordes consumidos foram resultado da recuperação do rebanho suíno do país e das medidas para controlar a doença, como a proibição do uso de restos de comida na alimentação dos animais. Contudo, o enfraquecimento dos preços dos suínos e a manutenção dos elevados preços dos grãos no mercado doméstico chinês levantaram questionamentos sobre um possível desestímulo ao uso de milho e farelo de soja no país para ração.