
Pesquisa de Safra de Café no Brasil 2025/26 | Relatório final
Desde 2020 a produção brasileira de café vem enfrentando sucessivos desafios climáticos que afetaram tanto o volume colhido quanto o potencial produtivo das lavouras. Esse cenário voltou a se repetir na safra 2025/26, impactando sobretudo o café arábica. No segundo semestre de 2024 uma sequência de secas prolongadas e ondas de calor comprometeu severamente o desenvolvimento da florada no Brasil, o que resultou em uma queda expressiva no potencial produtivo para a safra de 2025.
A StoneX foi a primeira a divulgar estimativas para a temporada, em novembro de 2024, apontando naquele momento uma queda superior a 10% na produção de arábica e um avanço superior a 20% na produção de robusta, que contou com a vantagem do uso intensivo de irrigação. Em abril de 2025, após pesquisas e visitas realizadas nos meses de janeiro, fevereiro e março, a consultoria apresentou sua primeira revisão. O levantamento resultou em leve incremento na produção prevista de robusta, mas em uma redução ainda mais acentuada no arábica, consolidando queda superior a 13% na comparação anual.
Nos meses de maio, junho e julho a StoneX voltou a campo para avaliar o rendimento efetivo da safra e refinar suas estimativas. Foram visitadas regiões produtoras da Bahia, do Espírito Santo, de Minas Gerais e de São Paulo e, a partir desses novos levantamentos, foram feitos os ajustes mais recentes nas projeções.

Fonte: StoneX. Lavouras em Piumhi - MG, Itamogi - MG e Rio Bananal- ES.
Um 2025 atípico para o clima agrícola
O tempo e o clima no Brasil ao longo de 2025 têm sido marcados pela ocorrência de eventos que há pelo menos quatro anos não eram registrados nas principais áreas produtoras do país.
Abril: chuvas acima da média
O mês de abril foi caracterizado por precipitações acima da média em praticamente todas as regiões agrícolas do Centro-Oeste e Sudeste. Essa condição foi fundamental para recuperar a umidade de superfície (vegetação e solo), estabelecendo um cenário significativamente melhor do que em anos recentes, como 2021 e 2024.
Maio a julho: persistência da umidade e temperaturas mais baixas
Durante maio, junho e julho, observaram-se elevada umidade e maior nebulosidade. Isso contrastou com o padrão típico de julho, mês geralmente associado a alta radiação, elevada evapotranspiração e baixos volumes de precipitação. Além disso, as temperaturas mínimas e principalmente as máximas, permaneceram abaixo da média nas áreas produtoras de café, especialmente no sul de Minas Gerais. Essas condições estiveram relacionadas à atuação de frentes frias sucessivas e à entrada de umidade proveniente do sul do continente e do oceano Atlântico, que avançaram até o interior do Brasil, incluindo o Cerrado Mineiro. Esse padrão proporcionou temperaturas mais baixas e favoreceu a manutenção da umidade.
Ondas de frio e massas polares
O destaque do período foi o avanço das frentes frias acompanhadas por massas de ar polar. Normalmente esses sistemas ficam restritos ao Sul do Brasil, mas em 2025 chegaram com intensidade até o centro-sul do país, caracterizando a persistência do frio. Segundo o INPE, em algumas localidades foram registradas mínimas próximas de 10 °C em média, valores atípicos para a época. Entre maio e agosto, foram contabilizadas cinco ondas de frio, número acima da climatologia histórica, que aponta de duas a três incursões significativas no mesmo período. Essas ondas trouxeram geadas recorrentes no Sul e em áreas mais elevadas do Sudeste. O evento mais recente, em agosto, atingiu o Cerrado, provocando danos relevantes em cafezais.
Pluviosidade mensal e o ciclo do café

Fontes: StoneX e Chirps. Elaboração: StoneX.
Índice de Vegetação por Diferença Normalizada (NDVI) nas principais áreas produtoras de café
O NDVI pode ser interpretado da seguinte forma: valores mais altos indicam uma vegetação mais sadia, com maior densidade foliar e maior capacidade fotossintética, enquanto valores mais baixos refletem maior exposição do solo e menor quantidade de folhas. No caso do café, por exemplo, em Matas de Minas, valores reduzidos podem estar associados ao esqueletamento, a plantios novos ou a vegetação altamente estressada. Observe que o índice é baixo em várias regiões produtoras de arábica entre julho e outubro de 2024, refletindo o cenário de estresse causado pelo clima seco. Por outro lado, destaca-se o bom desenvolvimento das plantações de robusta em Rondônia, Espírito Santo e no Cerrado até o final de julho. Contudo, com o último evento de geadas no Cerrado Mineiro, esse desempenho acabou sendo afetado.

Rondônia

Sul da Bahia

Norte do Espírito Santo

Matas de Minas

Sul do Espírito Santo

Cerrado

Sul de Minas

Mogiana
Fonte: StoneX, com dados do Copernicus.
Rendimento do arábica fica aquém do esperado em 2025
As regiões produtoras de café arábica vêm acumulando perdas devido às condições climáticas adversas dos últimos anos e essa realidade voltou a pesar em 2025. Em 2024 a florada e a condição vegetativa das lavouras sofreram com uma estiagem prolongada, o que resultou em nova safra abaixo das expectativas.
O efeito foi observado em todas as regiões, mas com intensidade variada. São Paulo, em especial a Alta Mogiana, foi a área mais prejudicada. A Zona da Mata e o sul do Espírito Santo também registraram forte queda, agravada pela combinação da bienalidade negativa com o clima adverso. Já no norte do Espírito Santo e no sul da Bahia, onde se concentra a produção de conilon, as condições durante a florada foram próximas da normalidade e somadas ao uso amplo de irrigação garantiram excelente vigor vegetativo e alta produtividade. Isso permitiu que a produção nacional de conilon atingisse novo recorde. Rondônia, por sua vez, enfrentou problemas de seca e calor na florada, o que reduziu a produção estadual e impediu números ainda maiores para o país.
Com a colheita praticamente encerrada, já é possível avaliar os resultados em termos de rendimento e qualidade. O beneficiamento apresentou desempenho superior ao da safra anterior, mas abaixo do esperado para 2025/26. A baixa pluviosidade e as temperaturas elevadas de fevereiro, período de enchimento dos grãos, resultaram em frutos menores e mais leves. O efeito foi especialmente severo sobre o arábica, levando a rendimentos aquém do projetado e obrigando novo ajuste para baixo nas estimativas. A qualidade também foi impactada, com queda de dois a três pontos percentuais no percentual de peneira 17 e aumento significativo de grão moca, que alcançou entre 18% e 20%, patamar muito acima da média usual de 8% a 10%. No caso do conilon, o rendimento permaneceu em linha com o projetado anteriormente, mantendo inalterada a estimativa de produção.
Com base nos dados levantados, a StoneX mantém a estimativa da safra brasileira de robusta em 25,8 milhões de sacas, o que representa um aumento de 21,9% em relação à temporada anterior.
Para o arábica, a estimativa de produção foi reduzida em 5,7% frente à projeção anterior, para 36,5 milhões de sacas, correspondendo a uma queda de 18,4% no comparativo anual. Essa redução reflete os impactos do clima sobre o rendimento das lavouras no Cerrado, Espírito Santo, São Paulo e Sul de Minas Gerais.

Fonte: StoneX.
O que esperar do potencial para 2026/27
O cenário para a safra 2026/27 é mais promissor. As chuvas registradas entre novembro de 2024 e março de 2025 proporcionaram boa recuperação vegetativa ao parque cafeeiro. A ocorrência de precipitações nos meses tradicionalmente mais frios e secos e a definição mais clara da estação de inverno ajudaram a manter as lavouras em boas condições e preservaram seu potencial produtivo.
De modo geral, as regiões de arábica colheram pouco em 2025/26 e apresentaram alto percentual de podas. Isso tende a favorecer o desempenho em 2026/27, uma vez que áreas com baixa produção e lavouras recém-podadas costumam registrar maior vigor no ciclo seguinte. Dentro de uma normalidade climática, todas as regiões deverão produzir mais, com destaque para as Matas de Minas e o Sul do Espírito Santo, que entram em bienalidade positiva, além de São Paulo, que desta vez se beneficia de excelente condição vegetativa.
No Cerrado, apesar da recuperação observada até julho, a ocorrência de geada em agosto impactou negativamente o potencial. As temperaturas caíram para valores próximos de zero grau em Patrocínio nos dias 11 e 12 de agosto, embora os modelos climáticos indicassem mínimas entre 6 e 8 graus. O fenômeno atingiu 3,86 por cento da área da região e pode resultar em perdas de até 424 mil sacas na safra 2026/27. Também há risco de danos nos botões florais, que só poderão ser avaliados com a abertura da florada. Para mais detalhes leia a matéria especial Impactos das geadas na produção de café do Cerrado Mineiro.

Fonte: StoneX, com informações da NOAA.
Nas áreas de conilon, mesmo após uma safra recorde, o potencial produtivo segue elevado. A expansão de área nos últimos anos, a entrada de novas lavouras em condições vigorosas e o alto percentual de áreas irrigadas contribuem para um cenário de continuidade do bom desempenho, já que a irrigação reduz riscos climáticos e permite manejos mais eficientes.
Assim, as perspectivas são favoráveis para o robusta, enquanto para o arábica o quadro ainda depende do comportamento do clima entre o fim de agosto e os meses de setembro e outubro, período que será determinante para a abertura e fixação da florada. Esse fator será decisivo para o direcionamento dos preços no mercado nos próximos meses.
Agosto de contrastes e expectativas para a primavera
Para o fim de agosto, é esperada uma última queda acentuada de temperatura, sobretudo nas mínimas, devido ao avanço de uma frente fria. O risco é maior entre os dias 22 e 24, nas baixadas do Sul de Minas, Mogiana e Cerrado Mineiro.
A partir do dia 28/08, as temperaturas máximas tendem a se intensificar, especialmente no Sudeste e no Cerrado, em decorrência de uma onda de calor em evolução desde o dia 23/08 no oeste do Brasil, entre o Paraguai e Mato Grosso do Sul, que poderá alcançar até o Cerrado Mineiro. Nessas áreas, pode ocorrer amplitude térmica acentuada, semelhante ao observado em regiões desérticas, condição que exige atenção.
No café robusta, o Espírito Santo pode registrar chuvas passageiras no litoral, devido à influência de cavados e da circulação marítima. Em Rondônia, a umidade tende a aumentar nos próximos dias, mas o início de setembro deve marcar a chegada de uma onda de calor.
Para os próximos meses, a expectativa concentra-se no início da ocorrência de chuvas regulares, ou seja, o período chuvoso que normalmente começa em outubro e se estende até março nas principais áreas produtoras do Centro-Oeste e Sudeste. Nessas regiões, a combinação da umidade proveniente do Norte com as frentes frias vindas do Sul do continente costuma quebrar o período seco, intensificando-se ao longo da primavera e do verão.
Chuvas irregulares podem ocorrer no final de setembro, mas as chuvas regulares geralmente começam entre o segundo e o terceiro decêndio de outubro. O atraso no início dessas chuvas, sobretudo das provenientes do Norte do Brasil, tem sido uma tendência apontada pelos cenários de modelos que estudam as mudanças climáticas, assim como tem sido observado nos últimos anos. O ano passado, além do atraso no período chuvoso, foi marcado por temperaturas acima da média ao longo do inverno (junho, julho e agosto), o que intensificou esse cenário.
Segundo a última atualização do modelo regional do INPE, o mês de setembro deve apresentar volumes abaixo da média nas áreas cafeeiras de Matas de Minas, com menor intensidade dessa anomalia no Sul de Minas e no Cerrado Mineiro; o sul de Rondônia também enfrentará situação semelhante.
Em outubro, as Matas de Minas podem continuar com volumes abaixo do normal, assim como o Espírito Santo e o sul da Bahia. Já o Sul de Minas tende a registrar volumes próximos à normalidade, com possibilidade de alguns episódios acima da média, associados à maior nebulosidade. De forma geral, novembro deve apresentar volumes próximos da normalidade na maior parte das áreas cafeeiras.
Assim, o clima de agosto confirma um ano atípico e cheio de contrastes, exigindo atenção redobrada do setor cafeeiro, já que a definição da safra 2026/27 dependerá da evolução das chuvas regulares nos próximos meses.
Anomalia* de precipitação nos meses de setembro, outubro e novembro
Fonte: INPE.*A anomalia indica a variação da previsão de chuva em relação à média histórica (climatologia).