USDA aponta produção mundial recorde para a safra 2025/26;
Estoques domésticos e globais menos apertados, segundo USDA;
Demanda incerta nos Estados Unidos;
Dificuldades logísticas no Mar Negro.
Conflitos no Mar Vermelho trazem novas incertezas sobre exportações no Mar Negro;
Atrasos na colheita do trigo de inverno;
Aumento dos custos produtivos na União Europeia.
A última semana foi marcada por nova desvalorização nas cotações do trigo na Bolsa de Chicago (CBOT), mas um pouco mais moderada desta vez. O contrato futuro de setembro/2025, por exemplo, apresentou um recuo de 0,35% até o fechamento do pregão na última sexta-feira (22), encerrando o dia cotado em 504,75 cents/bushel. Em geral, o mercado de trigo tem buscado equilibrar alguns fatores de sustentação, como o avanço das exportações acumuladas e sinais positivos de produtividade em parte da safra que se desenvolve no país, apesar dos riscos ligados à demanda externa e à qualidade do trigo de primavera. A combinação destes fatores mantém os preços sensíveis tanto ao andamento climático quanto à evolução das compras internacionais.
O relatório de exportações semanais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), publicado na quinta-feira (21), mostrou que as vendas líquidas de trigo recuaram de forma expressiva, caindo quase 30% em relação à semana anterior e ficando também abaixo da média recente. Embora o resultado tenha se mantido dentro da faixa de expectativas dos agentes, a leitura do mercado é de que a demanda externa segue oscilante, especialmente em um momento de maior competição internacional.
Em contrapartida, as exportações físicas deram um respiro, avançando 6% em relação à semana passada, ainda que tenham permanecido abaixo da média das últimas quatro semanas. Os dados do acumulado da safra, no entanto, são mais encorajadores, indicando que os EUA já exportaram 4,6 milhões de toneladas para esta temporada comercial, um crescimento de 7% frente ao mesmo período do ciclo anterior. Esse desempenho reforça a percepção de que, mesmo diante de oscilações semanais, a presença estadunidense no mercado internacional permanece sólida.
No campo, a colheita do trigo vermelho duro de inverno (HRW) está praticamente finalizada, com mais de 90% colhido, abrindo espaço para a preparação do plantio da próxima temporada. O maior ponto de atenção recai sobre o trigo de primavera vermelho duro (HRS), que vêm sofrendo com chuvas e excesso de umidade em áreas cruciais como nos estados de Montana e Dakota do Norte. Esse atraso se reflete em preocupações logísticas e sobre a qualidade do grão a ser colhido.
No Canadá, o início da safra foi marcado por exportações mais lentas, com queda de 42% na comparação anual. Apesar disso, os volumes estão alinhados à média histórica para este período, sugerindo um movimento mais sazonal do que estrutural.


Os plantios no estado do Paraná encontram-se em diferentes estágios fenológicos, mas, em sua maioria, já estão na fase reprodutiva, oscilando entre floração e frutificação.
No Rio Grande do Sul, a maior parte das lavouras ainda está em fase vegetativa, com algumas áreas iniciando a floração. De modo geral, as lavouras vêm apresentando bom desempenho agronômico, resultado de bons tratos culturais e da umidade do solo adequada, proporcionada pelas chuvas recentes. O regime de chuvas tem favorecido o desenvolvimento das lavouras, especialmente no Paraná. As geadas ocorridas no estado não foram generalizadas, e os danos observados parecem ter sido pontuais, concentrando-se nas áreas mais suscetíveis ao frio.
Com a passagem da frente fria ao longo da semana, há possibilidade de chuvas, mas também de frio intenso (temperaturas mínimas), que podem gerar geadas leves com risco moderado entre os dias 26 e 27 de agosto. Isso requer atenção especial no Paraná, devido ao estágio fenológico das lavouras, que pode ser afetado. Quanto às temperaturas máximas, os estados experimentarão tardes amenas, com alguns picos de calor no oeste dessas regiões na primeira semana de setembro, o que pode acelerar o ciclo das culturas.
O mercado europeu, por sua vez, apresentou uma recuperação nas cotações do cereal na Bolsa de Paris (Matif) ao longo da semana, com o vencimento de setembro/2025 se valorizando em 0,9% e encerrando a sexta-feira (22) cotado em 196,75 cents/bushel. Apesar da leve alta, o mercado de trigo na União Europeia continua atravessando um período de forte pressão de custos e enfraquecimento da competitividade.
As tarifas progressivas sobre fertilizantes russos, somadas ao encarecimento da ureia e da energia, têm elevado significativamente os custos de produção, ao mesmo tempo em que os preços do trigo continuam operando em suas mínimas de cinco anos. Do lado da oferta, a produção sofreu quedas expressivas em 2024, especialmente na França e na Alemanha, e embora se projete leve recuperação em 2025, os estoques continuam em trajetória de queda.
Com relação ao comércio exterior, as exportações do bloco perderam um certo fôlego. Entre julho de 2024 e março de 2025, o trigo comum caiu 37% e o processado 36%, enquanto apenas o trigo duro mostrou ligeira alta. No que diz respeito aos preços, por sua vez, o quadro permanece desafiador, com recuos adicionais em julho e um contraste entre o trigo para ração, que vem apresentando um alta anual de 7%. O trigo para moagem, por outro lado, opera com baixa de 9% em relação ao ano passado.

O mercado de trigo do Mar Negro atravessa a safra com fundamentos agrícolas positivos, mas enfrenta obstáculos na área comercial. A Rússia já colheu 63,5 milhões de toneladas, cerca de 60% da área plantada, com produtividade 7% acima da registrada no ano passado. Esse ganho reforça a perspectiva de uma safra robusta, mesmo com a área colhida estando um pouco abaixo no comparativo anual. Além disso, o governo mantém zerados os impostos de exportação para o trigo, numa tentativa de sustentar a competitividade russa nos mercados globais.
Apesar disso, as exportações seguem em ritmo moderado. Os embarques da última semana se mantiveram estáveis, mas o acumulado da safra já aponta queda superior a 40% em relação ao ano anterior. As novas regras de inspeção no porto de Kavkaz, que responde por uma fatia relevante das exportações, somadas à valorização do rublo e ao aumento nos custos logísticos, têm limitado o escoamento. Com isso, o Mar Negro apresenta um cenário de oferta abundante, mas com dificuldades em transformar esse volume em presença efetiva no mercado internacional.





