A última semana foi marcada por forte pressão sobre as cotações do café nas principais bolsas de negociação, refletindo principalmente as expectativas otimistas para a oferta global, tanto de café arábica quanto de robusta.
Nessa segunda-feira (2): O contrato mais próximo do café arábica buscou alguma correção na bolsa de Nova Iorque, encerrando o pregão cotado a US¢ 333,25/lb, alta de 0,3%. Depois da forte liquidação da semana passada, o mercado deve procurar um novo patamar de equilíbrio, enquanto segue acompanhando os indicadores de fundamentos.
O café robusta, por sua vez, estendeu a trajetória baixista e terminou cotado a USD 4.029/t, queda diária de 2,0%. Dados divulgados pela Indonésia nessa segunda-feira, indicando um avanço de 52% nas exportações de dezembro da região de Sumatra, voltaram a reforçar a percepção de oferta elevada entre os produtores asiáticos.
Conab e estimativas privadas movimentam o mercado
Na última semana, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou sua primeira estimativa para a safra brasileira de 2026/27, apontando um aumento de 9,5 milhões de sacas, ou 17,1%, em relação à temporada anterior.
- Café arábica: A produção foi estimada em 44,1 milhões de sacas, avanço de 8,3 milhões ou 23,3%. A produtividade apresentou aumento de 18%, passando de 24,1 para 28,5 sc/ha.
- Entre os principais fatores para a recuperação do arábica, a Conab destaca: ano de bienalidade positiva, condições climáticas mais favoráveis, maior investimento em tratos culturais impulsionado pelos preços elevados e expansão das áreas de cultivo.
- Café conilon: A Conab estima produção de 22,1 milhões de sacas, incremento anual de 1,3 milhão de sacas ou 6,4%. A produtividade média subiu de 55,9 para 57,1 sc/ha.
- Para o conilon, também foram citados como fatores positivos a expansão de área, a renovação de lavouras, melhorias nos tratos culturais, além de reservatórios de água em boas condições e temperaturas mais amenas, que ajudaram a mitigar os efeitos de um período de chuvas abaixo da média no quarto trimestre.
Por que isso é importante: Nos últimos anos, o mercado tem demonstrado ceticismo em relação aos números da Conab, que historicamente apresenta estimativas abaixo de outras instituições e, em diversas ocasiões, distantes da realidade observada. Assim, embora a projeção atual ainda esteja na banda inferior das estimativas disponíveis, o incremento expressivo — próximo de 10 milhões de sacas — reforça o cenário de oferta significativamente maior em 2026.
Consenso do mercado é de provável recorde
Além da Conab, diversas consultorias privadas divulgaram recentemente suas estimativas para o novo ciclo, e a maior parte também projeta um forte crescimento da safra brasileira. Embora as condições climáticas dos próximos meses sejam determinantes para a consolidação da safra, o consenso atual, amplamente favorável, tem conduzido o viés do mercado para uma postura majoritariamente baixista.
- A média das estimativas gira em torno de 71 milhões de sacas, valor próximo da projeção preliminar divulgada pela StoneX em novembro (70,7 milhões).
- O intervalo entre a menor e a maior estimativa também se situa em níveis elevados, reforçando o alinhamento das expectativas do mercado.
- As estimativas do USDA serão divulgadas apenas em junho. No entanto, a instituição vem apresentando inconsistências nas publicações iniciais dos últimos anos para a safra brasileira, revisando posteriormente seus números para níveis mais próximos dos estimados pela StoneX.
Estimativas para a produção de café do Brasil (milhões de sacas)
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Fonte: Conab, USDA e StoneX. Elaboração: StoneX.
Fundos reduzem apostas altistas
O último relatório da CFTC mostrou uma liquidação significativa das posições compradas pelos fundos especulativos na bolsa de Nova Iorque. Na semana encerrada em 3 de fevereiro, os especuladores detinham um saldo comprado de 7.331 lotes em futuros e opções, uma queda de mais de 12 mil posições em relação aos 19.512 lotes comprados na semana anterior.
Com isso, a posição líquida comprada dos fundos atingiu o nível mais baixo desde novembro de 2023.
Posição líquida dos fundos especulativos em café na bolsa de Nova Iorque
Fonte: CFTC. Elaboração: StoneX.
Por que isso é importante: Nos últimos anos, diante das sucessivas frustrações na oferta global, os especuladores adotaram majoritariamente apostas altistas, contribuindo para impulsionar os preços a níveis historicamente elevados — como observado no início de 2025, quando o forte aumento das posições compradas ajudou a sustentar as máximas atingidas naquele período.
- A forte liquidação dos fundos reforça a mudança de viés do mercado, agora direcionado para expectativas de preços médios mais baixos em 2026.
- Ainda há espaço para novas liquidações por parte dos especuladores; entretanto, após a intensa realização de lucros observada até a última sexta-feira (6), o mercado tende a aguardar novos gatilhos fundamentais antes de aprofundar o movimento.
- Nesse contexto, notícias positivas sobre o clima no Brasil podem ser o principal fator para estimular novas reduções nas posições compradas dos fundos.
Exportações asiáticas de café se aceleram
Na última semana, a divulgação de dados de exportação dos dois maiores produtores asiáticos de café, Vietnã e Indonésia, indicou uma aceleração relevante da atividade exportadora em ambos os países. Esse movimento deve ter contribuído parcialmente para a recente pressão baixista sobre os preços internacionais da commodity nos últimos pregões.
Vietnã: O principal produtor de café da Ásia registrou novo avanço expressivo em suas exportações no mês de janeiro, com alta de 56% em relação ao mesmo período do ano anterior.
- Considerando os quatro primeiros meses da safra atual 2025/26, entre outubro e janeiro, o crescimento acumulado das exportações atinge aproximadamente 48% na comparação com o mesmo intervalo da safra anterior.
- O resultado de janeiro reforça a tendência observada ao longo de 2025, ano que o Vietnã encerrou como o melhor‑sucedido de sua história em exportações de café em termos de receita.
- Nos últimos meses, o ritmo de embarques se intensificou de forma significativa, sustentado por preços internacionais elevados, demanda robusta da Europa e desempenho excepcional de mercados importadores emergentes.
Indonésia: De acordo com dados da balança comercial do país, as exportações indonésias de café totalizaram 8,4 milhões de sacas em 2025, avanço de 62% em relação a 2024 e cerca de 50% acima da média dos últimos três anos.
- Do total exportado em 2025, aproximadamente 89% corresponderam ao café robusta, enquanto 11% foram de café arábica.
- Nos três primeiros meses da temporada 2025/26, entre outubro e dezembro, as exportações acumulam crescimento próximo de 20% frente ao mesmo período da safra anterior.
- O desempenho produtivo reforça a percepção de melhora do clima e aumento dos investimentos no setor ao longo dos últimos anos, especialmente em expansão de área e melhorias no manejo agrícola.
- A região de Sumatra permanece como o principal polo produtor do país, respondendo por cerca de 70% a 75% da produção nacional, com o sul da ilha concentrando a produção de robusta e o norte sendo a principal origem do arábica.
- Ao mesmo tempo, o consumo doméstico da Indonésia permanece relativamente estável, estimado em torno de 4,8 milhões de sacas na safra 2025/26 segundo o USDA, o que indica que a maior parte do incremento da produção deverá ser direcionada ao mercado externo.
Por que isso é importante: O forte desempenho das exportações asiáticas reforça a expectativa de que a safra global de café robusta em 2025/26 apresente um incremento significativo em relação às safras anteriores, nas quais os produtores asiáticos sofreram especialmente com irregularidades climáticas.
- Junto disso, a expectativa de uma boa colheita da safra 2026/27 no Brasil deve contribuir ainda mais com a expectativa de preços a patamares menores do que o observado no último ano.
- Esse cenário tende a manter pressão sobre a curva de Londres e sobre os preços do café robusta nos mercados físicos de países produtores, com possíveis diminuições dos diferenciais.
Exportações mensais de café do Vietnã por ano-safra(milhões de sacas)
Fonte: Vietnam Customs. Elaboração: StoneX.
Exportações mensais de café da Indonésia (mil sacas)

Fonte: BPS. Elaboração: StoneX.
Safra 2025/26 abaixo do ritmo esperado na Colômbia
Segundo dados da Federação Nacional dos Cafeicultores da Colômbia, a produção de café no país totalizou 893 mil sacas em janeiro, queda de 34% em relação ao mesmo mês do ano passado, quando o país produziu 1,35 milhão de sacas.
- Nos quatro primeiros meses da safra 2025/26, entre outubro e janeiro, a produção acumulada recuou 26,5%, passando de 6,25 milhões de sacas no mesmo período da safra anterior para 4,6 milhões de sacas na safra atual.
- Na estimativa mais recente do USDA, a produção colombiana é projetada em 13,8 milhões de sacas na safra 2025/26, ante 14,8 milhões em 2024/25, o que representa uma queda de aproximadamente 7%.
- Nesse sentido, o acompanhamento da safra até o momento indica um desempenho mais fraco do que o antecipado pelas projeções.
Exportações mensais de café da Colômbia (milhões de sacas)
Fonte: FNC. Elaboração: StoneX.
Nessa semana
Os preços iniciaram a segunda-feira passando por correções tanto na bolsa de Nova Iorque quanto na bolsa de Londres, após a queda intensa da semana passada. A tela de março do café arábica avança pouco mais de 1,1%. Já o café robusta terminou a sessão com avanço de 3,3%.
- O Índice de força relativa aponta para uma condição ainda sobrevendida no café arábica, indicando que existe espaço para mais alguma correção ao longo da semana, com o mercado devendo buscar um novo ponto de equilíbrio enquanto aguarda por novas informações.
- Nessa terça-feira (10), o Cecafé divulgará os dados oficiais das exportações brasileiras de janeiro. A expectativa é de que os números venham significativamente mais baixos tanto em relação ao mês anterior quanto em relação a janeiro/25.
- Uma confirmação pode apontar que, embora a expectativa para a próxima colheita seja favorável, o mercado ainda continua com uma condição mais apertada no curto prazo, principalmente no que diz respeito ao café arábica, o que pode contribuir para conter novas quedas intensas nos preços.
- As regiões produtoras no Brasil devem continuar registrando precipitações nas próximas duas semanas, no entanto, com volumes levemente abaixo da média em áreas do Cerrado, São Paulo e Espírito Santo, o que será monitorado de perto pelo mercado.
TABELA DE INDICADORES

Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.