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Semanal de Café

By: Leonardo Rossetti, Market Intelligence Analyst

Futuros de café seguem pressionado com safra recorde brasileira iminente

  • Altista
  • Safra atual menor e restrições nas vendas fortalecem diferenciais de café arábica no Brasil no curto prazo;
  • NOAA reforça projeções de El Niño para o início do 2º semestre;
  • Apesar de volumes de exportação expressivos, produtores no Vietnã seguem restringindo novas vendas.
  • Baixista
  • Expectativa de superávit no balanço global de 2026;
  • Projeções de safra recorde no Brasil;
  • Aproximação da colheita no Brasil;
  • Alta do dólar frente ao real pressiona cotações na bolsa.

Estoques certificados em queda e riscos de El Niño podem trazer algum suporte

A última semana foi marcada por um ambiente macro desfavorável para as commodities agrícolas. O dólar americano voltou a se fortalecer globalmente, com o avanço do Dollar Index pressionando as moedas emergentes — o real brasileiro encerrou a semana a R$ 5,08/USD (+3,5%), no pior nível das últimas semanas, fator que contribuiu para a pressão sobre as cotações, especialmente do café arábica.

Entre os fundamentos, a perspectiva de aceleração de uma colheita recorde no Brasil seguiu como o principal vetor de baixa. O mercado também acompanhou as atualizações das exportações brasileiras em abril e novas estimativas do USDA, que reforçam, ao menos parcialmente, a expectativa de uma produção global mais elevada no ano. Por outro lado, os estoques certificados em níveis reduzidos e as atualizações das projeções para o El Niño ainda inspiram cautela entre os agentes, podendo oferecer algum suporte aos preços.

Arábica: O vencimento de julho do café arábica encerrou a semana a USc 266,9/lb na bolsa de Nova Iorque, queda de 2,9% na semana e novo fundo em cerca de um ano e meio. A semana começou em alta, com os preços avançando 2,7% para USc 282,3 na segunda-feira (11), mas com as cotações perdendo força ao longo da semana, ao passo que os fundamentos majoritariamente baixistas seguem predominando no curto/médio prazo.

O avanço inicial da safra, que segundo estimativas do Cepea se encontra entre 3% e 5% da área, já tende a começar a estimular algumas vendas no mercado físico, com a forte alta do dólar contribuindo para pressionar as cotações na bolsa.

O último relatório do CFTC confirmou a tendência de liquidação de fundos já apontada no relatório semanal anterior. Na semana encerrada em 12 de maio, a posição líquida dos fundos especulativos recuou em 5.714 lotes, totalizando 12.558 posições compradas — o menor nível desde meados de março. O movimento indica maior cautela por parte dos specs. Além disso, observa-se que grande parte dessa mudança foi impulsionada pelo aumento das posições vendidas, sugerindo uma intensificação da percepção baixista entre esses participantes.

Robusta: O contrato equivalente do café robusta encerrou a semana a USD 3.365/t na bolsa de Londres, queda de 1,4%. O movimento foi semelhante ao observado em Nova Iorque, com início da semana em alta, seguido por pressão sobre as cotações nos pregões subsequentes.

O sentimento de oferta para o conilon segue mais favorável em relação ao arábica. As exportações brasileiras de conilon em abril, reportadas pelo Cecafé na última semana, surpreenderam positivamente ao registrar volume acima do esperado, reforçando a percepção de que o mercado global permanece bem abastecido.

Adicionalmente, a cooperativa capixaba Cooabriel — maior cooperativa brasileira de café conilon — indicou que a safra 2026 de robusta no estado deve ficar ligeiramente abaixo da anterior em termos de volume, mas com qualidade superior. O presidente da cooperativa também destacou preocupação com o aumento dos custos de insumos agrícolas, decorrente das perturbações logísticas no Estreito de Hormuz.

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Fonte: CmdtyView. Elaboração: StoneX.

Mercado físico: O Indicador Cepea para o café arábica encerrou a semana em R$ 1.637,88/saca, recuo de 1,9%. Já o Indicador Cepea do robusta (conilon) atingiu R$ 930,15/saca, com alta de 1,9% no período. A desvalorização do real (R$ 5,08/USD) amorteceu parcialmente a queda do arábica em moeda local, mas não foi suficiente para reverter a tendência.

O mercado spot de arábica segue com baixa liquidez, refletindo o esgotamento praticamente total da safra 2025/26 disponível para comercialização. Destaca-se ainda que a valorização do dólar contribuiu para a pressão sobre os diferenciais do arábica frente à bolsa nos últimos dias, que voltaram a ser observados abaixo de USc -20/lb.

Nessa segunda-feira: Os futuros de café iniciam a semana em estendendo as quedas nas bolsas. Nos próximos dias, o mercado deve monitorar o ritmo de avanço da colheita brasileira, eventuais atualizações dos estoques certificados na ICE, a evolução do ENSO e o câmbio BRL/USD, que seguirá como um dos principais determinantes da velocidade de comercialização por parte dos produtores.

Exportações brasileiras de café se mantêm estáveis em abril, mas receita recua

Segundo dados do Cecafé divulgados em 13 de maio, o Brasil exportou 3,122 milhões de sacas de café em abril de 2026, volume praticamente estável frente ao mesmo mês de 2025, quando os embarques somaram 3,105 milhões de sacas. Apesar da estabilidade no agregado, a abertura por variedade mostra dinâmicas bastante distintas.

  • As exportações de arábica verde recuaram 15,9%, para 2,26 milhões de sacas, refletindo a menor disponibilidade no fim da safra 2025/26. Em contrapartida, os embarques de robusta saltaram 374%, para 497 mil sacas, impulsionados pela entrada antecipada de lotes da nova safra e pelo interesse externo em cafés de menor preço relativo.
  • Ainda assim, a receita cambial caiu 17,7%, para US$ 1,109 bilhão, ante US$ 1,347 bilhão em abril de 2025. O dado mostra que o avanço do robusta ajudou a sustentar os volumes, mas não compensou integralmente a queda do arábica, que segue tendo maior peso na pauta exportadora e maior valor médio.
  • No acumulado de janeiro a abril, o Brasil exportou 11,619 milhões de sacas, queda de 16,1% frente ao mesmo período de 2025. Dessa forma, o resultado de abril melhora a leitura de curto prazo, mas ainda não altera o quadro de menor disponibilidade exportável no fim da safra.

Exportações mensais brasileiras de café arábica (milhões de sacas)
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Fonte: Cecafé. Elaboração: StoneX.

Exportações mensais brasileiras de café robusta (milhões de sacas)
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Por que isso é importante: A estabilidade dos embarques totais demonstra também uma mudança relevante na composição das exportações brasileiras. O arábica perde força no fim da safra, enquanto o robusta passa a sustentar parte maior do fluxo exportador.

  • Esse movimento ajuda a explicar a queda da receita, em que mesmo com volumes estáveis, a maior participação de cafés de menor preço médio e a retração do arábica limitaram o valor exportado. Assim, a entrada da nova safra tende a normalizar os embarques, mas não necessariamente recompor a receita no mesmo ritmo.

Em detalhes: Entre os destinos, a Alemanha manteve a liderança no acumulado do ano, com 1,563 milhão de sacas, ou 13,4% do total, apesar da queda de 12,8% na comparação anual. Os Estados Unidos aparecem em seguida, com 1,390 milhão de sacas, recuo de 41,5%, enquanto a Itália avançou 3,2%, para 1,182 milhão de sacas.

  • A queda dos embarques para os EUA merece atenção, em meio aos efeitos das mudanças tarifárias e comerciais de 2025/26 sobre fluxos logísticos e decisões de compra.
  • Por outro lado, destaca-se que as 451 mil sacas enviadas aos EUA em abril foi o maior volume em 11 meses, sinalizando uma possível normalização dos fluxos.

O que esperar: Com o avanço da colheita 2026/27, especialmente do robusta no Espírito Santo, os volumes exportados devem se normalizar gradualmente a partir de maio e junho.

  • Ainda assim, a receita deve seguir pressionada por preços médios menores do que os observados um ano antes.
  • Além disso, as vendas antecipadas da safra 2026/27 seguem em apenas 16% do volume esperado, indicando cautela dos produtores.
  • Esse comportamento pode limitar a velocidade de entrada da nova oferta no mercado, principalmente se os preços permanecerem menos atrativos.

Diferenciais mais baixos reforçam a competitividade do robusta brasileiro: A sustentação das exportações brasileiras de robusta ocorre em contexto de redução dos diferenciais de preço frente a outras origens. Com a entrada da nova safra e a melhora da disponibilidade doméstica, o recuo desses diferenciais reflete, em grande medida, preços mais competitivos do produto brasileiro no mercado internacional.

  • Diferenciais menores, quando associados a preços absolutos mais baixos, tendem a ampliar a atratividade do robusta brasileiro frente a concorrentes, favorecendo a demanda externa e incentivando o avanço dos embarques.

Diferenciais de preços do café robusta em diferentes regiões (USD/saca) image 131512

Fonte: StoneX CmdtyView. Elaboração: StoneX.

ENSO em Transição: El Niño com 82% de Probabilidade até Julho 

A atualização do ENSO divulgada pela NOAA em 14 de maio e complementada pelo monitoramento interno da StoneX elevou o alerta climático para o mercado de café. A probabilidade de formação de El Niño no trimestre maio-junho-julho de 2026 é de 82%. A NOAA emitiu formalmente um 'estado de vigilância para El Niño' (El Niño Watch), indicando que as condições oceânicas já estão se desenvolvendo, embora a resposta atmosférica ainda não seja completa.

Em detalhes: O Oceano Pacífico equatorial já apresenta aquecimento superficial próximo ao limiar de caracterização do fenômeno.

  • Para o trimestre abril-maio-junho, a probabilidade de condições neutras ainda prevalece (84%), com apenas 16% de chance de El Niño nesse curto prazo.
  • A transição mais provável ocorre entre junho e julho. Segundo o IRI, há probabilidade próxima de 70% de que a temperatura da superfície do mar supere o limiar de caracterização já no trimestre AMJ (abr-mai-jun).
  • A partir de junho-julho-agosto, tanto NOAA quanto IRI indicam mais de 90% de probabilidade de que o Pacífico permaneça em condição compatível com El Niño até o início de 2027 — com 96% de chance de persistência no inverno boreal (dez/26-fev/27).

Projeção de Probabilidade e intensidade de El Niño/La Niñaimage 131513

Fonte: NOAA. Elaboração: StoneX.

Por que isso é importante: El Niño tende a afetar de forma assimétrica os principais países produtores de café.

  • No Brasil, o fenômeno historicamente se associa a chuvas acima da média no sul/sudeste no verão, o que pode afetar principalmente a floração da próxima safra.
  • Para o Vietnã e Indonésia, El Niño tende a trazer seca, impactando negativamente a produção de robusta.
  •  A particularidade desta janela é que o evento pode se intensificar justamente durante o período crítico da floração no Brasil (setembro-outubro) e da colheita do Vietnã (outubro-dezembro).
  • Um El Niño mais forte que o antecipado representa, portanto, um vetor altista latente que o mercado ainda precifica de forma parcial.

Vale destacar que, a despeito das altas probabilidades de ocorrência, há incerteza relevante sobre a intensidade do evento: nenhuma categoria de intensidade (fraco, moderado, forte) supera 37% de probabilidade isoladamente. Um El Niño fraco teria impactos climáticos limitados sobre a produção agrícola; já um evento moderado a forte poderia reintroduzir prêmio de risco nos preços — especialmente no robusta, mais vulnerável à seca tanto no Brasil quanto no Sudeste Asiático.

O que esperar: Nos próximos meses, o mercado deve incorporar progressivamente o risco El Niño na formação de preços, especialmente do robusta. A StoneX permanece com monitoramento climático ativo e atualizará as projeções de produção conforme os modelos de previsão forem convergindo para uma estimativa mais precisa de intensidade.

Estimativas USDA 2026/27: México Estável, Índia sob Pressão Climática

O USDA divulgou em 14 de maio, por meio de seu Serviço Agrícola para o Exterior (FAS), estimativas de produção para dois importantes países exportadores de café na safra 2026/27.

México

A produção mexicana mantém trajetória de crescimento moderado, com mudanças estruturais relevantes no perfil produtivo e na demanda interna.

  • A produção foi estimada em 4,1 milhões de sacas, representando um crescimento de 1% em relação à safra anterior, sustentado principalmente por ganhos de produtividade e ajustes na composição de variedades.
  • Parte relevante desse crescimento está associada à expansão da produção de robusta, indicando uma estratégia de diversificação produtiva, além da adoção de melhores práticas de manejo, que vêm contribuindo para maior eficiência no campo.
  • O consumo doméstico também deve avançar cerca de 1% para 3,17 milhões de sacas, impulsionado pela expansão do consumo fora do lar, com destaque para o crescimento do segmento de bebidas prontas  e pela maior penetração de cafés especiais.
  • Os Estados Unidos seguem como principal destino das exportações mexicanas, reforçando a importância do país dentro da dinâmica de abastecimento da América do Norte.

Por que isso importa:

  • O México desempenha papel estratégico como fornecedor complementar de arábica lavado para os EUA, especialmente em um contexto de maior segmentação de origens.
  • Em um cenário de redirecionamento de fluxos comerciais, decorrente de tarifas ou restrições sobre outras origens, a estabilidade da oferta mexicana contribui para mitigar pressões sobre o abastecimento norte-americano.
  • A expansão do robusta sugere uma mudança gradual na estrutura produtiva observada no mercado global como um tudo, com o café robusta tendo cada vez maior participação na produção global.

Índia

A produção indiana apresenta estabilidade no volume agregado, mas com risco relevante de deterioração qualitativa, principalmente no arábica, em função de condições climáticas adversas.

  • O USDA projetou a produção em 6,14 milhões de sacas, mantendo o país como um exportador relevante no mercado global, porém, representando retração anual de 4,5%.
  • O cenário climático traz preocupações importantes: chuvas excessivas no início do ano (jan-fev) prejudicaram o desenvolvimento inicial das lavouras.
  • Esse período foi seguido por uma seca prolongada durante a fase crítica de floração e frutificação, afetando principalmente os rendimentos do arábica.

Demanda e comércio:

  • O consumo doméstico foi estimado em 1,58 milhão de sacas, com leve crescimento sustentado pela forte demanda por café solúvel.
  • As exportações foram projetadas em 6,2 milhões de sacas (+3,2% a.a.), com crescimento apoiado por:
    • Maior disponibilidade exportável
    • Acordos de livre comércio recentes, que ampliam o acesso a mercados
    • Expansão de produtos de maior valor agregado, sobretudo no segmento de solúvel

O que esperar:

  • A Índia mantém sua posição como um exportador de nicho, com crescente relevância nos mercados de cafés especiais e industrializados
  • No curto prazo, a expectativa de exportações mais elevadas (6,2 milhões de sacas) tende a atuar como um vetor baixista marginal, especialmente sobre a arbitragem entre robusta indiano e vietnamita.
  • O padrão climático observado — combinação de chuvas excessivas seguidas por seca — reforça a incerteza produtiva e replica, em menor escala, riscos associados ao ENSO (El Niño) para outros produtores asiáticos.

Acompanhamento de colheita

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TABELA DE INDICADORES

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Fontes: ICE/NY; ICE/EU; B3; Commodity Network Trader’s Pro.
  • Café

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